terça-feira, 31 de janeiro de 2017

ODE À PRIMAVERA



Ode à primavera
Ipê frondoso, belo e colorido
Sobressai entre a flora deste espaço
Obreiros da transformação do aço
Acrescentam às vidas mais sentido

Sobrevive o tão formoso abricó
Que fora há alguns anos plantado
Floresce, frutifica e ignorado
Permanece incólume, belo e só

Pequenas azaléas coloridas
Surpreendentemente graciosas
Trazendo encanto e graça a tantas vidas

Não nos esqueçamos das ingazeiras
Louros, pinus, cítricas e outras tantas
Além das graciosas goiabeiras.

Enéas


ODE A UM ANTI-HERÓI

Mentecapto ditador torpe e vil
Escravizou milhares de infelizes
Ignorando dores e cicatrizes
Exterminou pelas balas do fuzil

Foi embora magro, feio e assaz
Corrompeu uns, detrimento de milhões
Intimidou por baionetas e grilhões
Causou inveja e desdouro a satanás

Deixou bens acumulados, tesouro
Mágoas e ressentimentos atrozes
Surdo apego pela posse do ouro

Atualmente deve estar sentado
Refletindo sua historia imbecil
No colo do Demônio, aposentado.
                                 Enéas


quarta-feira, 16 de março de 2016

CRÔNICA

DIVERSIDADE NO PARQUE DA JUVENTUDE

            Na ultima ida de minha nada disciplinada jornada de caminhadas, intercaladas ao trote, num dos melhores espaços destinados a tal mister e outros mais, trata-se do Parque da Juventude no centro de São Bernardo do Campo, separado do Paço Municipal pela avenida Faria Lima, isso aconteceu acerca de cinco a seis semanas passadas.  Ao mencionar minha indisciplina à frequência das atividades físicas, quero frisar que não é por falta de tempo, pois tempo, infelizmente tenho muito, mas por falta de determinação e devo admitir, preguiça.
            O parque é estruturado para o lazer e entretenimento para pessoas de todas as idades, de um aninho aos cem anos ou mais, sendo que as instalações para a prática do Skate toma em torno de quarenta por cento de toda a área do parque e é considerado um dos maiores e mais modernos da América Latina.
            Para os pequeninos há um mini parque infantil com balanços e outros brinquedos em madeira e corda e piso sintético, para os adultos, uma área de aquecimento e ginástica destinada principalmente aos adeptos das caminhadas e corridas, e ainda no extremo oposto do parque há torres de pedra para a prática assistida de rapel, um palco amplo para shows musicais com amplo espaço para plateias de pé, uma grande pista medindo seiscentos metros de extensão, asfaltada, destinada às caminhadas e corridas, ladeada por cerca viva em arbustos de cor dourada, chamados Pingo de Ouro, permanentemente muito bem podados em formato quadrado. A pista tem cerca de três a quatro metros de largura e é demarcada a cada cem metros em sua extensão, tendo nas laterais muitas e frondosas árvores, palmeiras e flores como azaleias, quaresmeiras e outras. Em todas as alamedas do parque há as cercas vivas de que falei, cuidadosamente podadas.
            Há ainda em estado de deterioração, pelo abandono, instalações do que foi até uns oito anos passados, uma tirolesa com alta torre para embarque e área de aterrissagem, numa extensão de duzentos e cinquenta metros aproximadamente.
            Em uma das faces da pista de skate há uma área livre onde jovens senhoras ocupam para praticar ginástica, com seus equipamentos específicos e personal trainers, vê-se que são pessoas de bom poder aquisitivo; ao lado, na pista de caminhada encontramos adolescentes de ambos os sexos com seus inseparáveis aparelhos celulares e fones de ouvido e jovens, adultos e idosos, a maioria devidamente vestidos e calçados para a prática de caminhadas e corridas, outros, principalmente idosos, com vestimenta e calçados inadequados e um ou outro caminhando com dificuldade e até mancando, infelizmente, o que tem me causado pena.  Há também razoável quantidade de jovens e principalmente adolescentes que para lá se dirigem a fim da paquera e namoro, creio haver mais de uma história de uniões de casais em que o parque tenha sido o palco do primeiro encontro.           O meu tempo de permanência no parque é em torno de uma hora e meia, sendo uma hora de caminhada e trote, distribuído assim: quatrocentos metros em caminhada rápida e os duzentos metros restantes da volta em trote em baixa velocidade; a meia hora final eu me dedico a exercitar abdominais e embaixadas.
            Na parte central do parque, há instalações sanitárias em péssimo estado de conservação, instalações para pronto atendimento em caso de socorro médico e também instalações de administração do parque. Na parte superior, há uma loja de skate e acessórios e também uma lanchonete e outros espaços dos quais não sei a finalidade e ainda acesso ao que fora no passado o embarcadouro para a tirolesa a qual mencionei há pouco.
            Presenciei algo inusitado, quando estava a meia hora de minha caminhada ao cruzar com a alameda de entrada do parque, havia uma pardoca, (fêmea do pardal), entre dois filhotes de Chupim, ambos com o dobro do tamanho da mãe adotiva, numa choradeira característica de filhotes pedindo por alimento e ela como toda boa mãe administrava a súplica com relativa tranquilidade. Para quem não sabe, o chupim é um pássaro de pequeno porte que velhacamente põe seus ovos no ninho de outro pássaro, que inocentemente os choca e cria os filhotes junto aos seus e por seus os considera embora tenham porte e coloração diferentes.
            Ri sozinho, já que há muitos anos presenciara cena semelhante, embora no passado tenha visto isso muitas vezes; e imediatamente vi na natureza incomum e instintiva do chupim, forte semelhança com certos racionais e pensantes seres humanos, espertalhões que ultrajam e ludibriam os seus iguais.
                                                                         
                                                                                                           Enéas Antonio Pires    




domingo, 21 de fevereiro de 2016

CRÔNICA

Ano novo, reminiscências e atualidades.

            Ano novo é dia de celebração, encontros de familiares, parentes e amigos e através deles conquistarmos novos amigos e às vezes propiciarmos novos e duradouros encontros e relacionamentos para toda a vida, quantas histórias terão como ponto de partida esse dia!  Nessa data, todos os humanos despedem-se do ano que finda, desejando e mentalizando que o ano que se inicia seja diferente e melhor em todos os aspectos que norteiam a vida humana. Especificamente nesse ano de 2015, que se finda, não deixará saudades para a esmagadora maioria da população brasileira, pela caótica situação sociopolítica e financeira do país e de seus cidadãos, vítimas de um governo corrupto e incompetente, na verdade, um desgoverno; defensor de uma ideologia populista, do atraso e da perpetuação no poder, em detrimento das instituições e do povo.
            Esta data marca, eu creio, a vida de cada um de nós, num determinado período da vida, ou em mais de um; digo isso porque marcou a minha, aos meus oito anos de idade, eu iniciara naquele ano, 1957, o meu segundo ano escolar. Eu vivia com meus avós maternos, João Bento da Costa e Joaquina Flausina da Costa, em uma chácara de sua propriedade na periferia da pequena cidade de Glicério, na região noroeste do Estado de São Paulo, pois meus pais moravam em fazenda distante, em região desprovida de escolas. Lá permaneci por quatro anos, período correspondente ao quarto ano escolar da época. Naquele tempo, a Ferrovia Noroeste do Brasil funcionava plenamente, eram muitos trens de cargas e de passageiros que passavam diariamente, puxados pelas charmosas, fumegantes e barulhentas locomotivas de origem inglesa, movidas a vapor d’água por combustão de lenha, as “Marias Fumaças”, assim chamadas graciosamente pela população da época. Na pequena e pacata Glicério, (homenagem ao General do Exercito brasileiro, Francisco Glicério, 1846-1916, nascido em Campinas, SP, por ter sido ele importante colaborador na formação da República do Brasil)        daquele tempo, todos se conheciam, desde o proprietário da única indústria da cidade, uma “Serraria” ou Madeireira de grande porte que processava gigantescas toras de peroba vindas do Estado de Mato Grosso; seus funcionários, funcionários da Estação do trem: portadores, manobristas, telegrafistas, o chefe da estação, o senhor Domingos; os poucos comerciantes e toda a população da cidade.
            Eu caminhava radiante ao lado de meu pai, que viera da fazenda com minha mãe e dois irmãos menores, Vera Leila e João Luís, para passarmos o ano novo juntos; íamos para o centro da cidade e a estação do trem era o ponto de parada “obrigatório”, antes de cruzarmos o vale e o riacho rumo ao centro. Meu pai conversava animadamente com dois funcionários da estação e eis que chega o telegrafista Artur Gonzaga Correia,  filho do Bombeiro, como era chamado o responsável pelo abastecimento com água dos reservatórios das locomotivas, o senhor Luiz Gonzaga Correia,  e diante do aspecto de cansaço e cabelos em desalinho do Artur, meu pai disse-lhe: - “ E aí boa vida, que cara enfarruscada é essa”? – “O velho foi”, respondeu Artur. – “Eu sei disso, hoje é ano novo”, retrucou meu pai. – “O velho meu pai faleceu ontem à noite”, enfatizou Artur.  Meu pai surpreso pediu-lhe mil desculpas pelo inesperado e triste fato e fomos ao velório, ante a perplexidade do ocorrido naquele dia de alegrias e comemorações. Esse acontecimento marcou-me de maneira indelével. Bem, os anos se passaram e nenhum outro acontecimento excepcional tomou lugar de destaque em minha memória, que eu me lembre.
            Nos dois últimos anos, comemoramos a data em Caraguatatuba, litoral norte paulista, no condomínio Yatch Club, em companhia de Claudiner e Eliete, compadres, ela irmã de Helena, minha esposa, suas crianças: Caio e Mariana, nós: eu, Helena e André nosso filho de 18 anos de idade. Na véspera do ano novo de 2016, meu concunhado e compadre tinha um passeio a fazer com seu barco, levaria uma família a conhecer várias ilhas no entorno de Ilhabela e esse passeio demandou tempo das nove até às dezesseis horas e por isso resolvemos acompanha-lo até próximo do ponto de embarque e desembarque dos passageiros. Eliete com as crianças, eu e Helena acampamos na praia do Flamengo, uma praia cinematográfica, lindíssima, próxima do saco da ribeira, local de embarque e desembarque dos turistas.
            O dia transcorreu muito bem na praia do Flamengo, aproveitamos a praia, com muitos barcos atracados a certa distancia; comemos e bebemos à sombra de frondosas árvores e não resisti ao ver enormes jaqueiras carregadas de frutos, pedi ao proprietário do local e apanhei três das maiores que encontrei e as levamos para nos  deliciarmos com elas a seguir. Na volta para casa à tarde pude ver por duas vezes ao lado do barco o peixe voador acerca de um metro de altura da água e a uns oito metros distante do barco e em nossa mesma trajetória, para nossa surpresa, pois nunca os tínhamos visto de tão perto.
            Na manhã desse mesmo dia, antes de sairmos para o passeio, fui pro mar próximo do condomínio e retirei um covo, armadilha de arame que deixara de espera na noite anterior, no seu interior estavam cinco enormes caranguejos do mar os quais ao mar os devolvi na tarde do mesmo dia após o passeio de barco.
            Nos intervalos entre a pescaria, o passeio de barco, banhos de mar e passeios pelo bairro, nos acercávamos da churrasqueira e do jogo de truco, regado a cerveja bem gelada, pois o calor era grande; quem não jogava se isolava confortavelmente com seu celular no WhatsApp e outros recursos da internet, algo inimaginável nos idos dos anos 1950, dos meus longínquos oito anos de idade! Qual será a novidade tecnológica daqui a cinco ou seis décadas e quem dos que conosco partilharam  dessa comemoração estará presente para testemunhá-la? Só o correr dos anos mostrará!

                                                                                                     Enéas Antonio Pires        

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

PÉROLAS SEMANTICAS

Ensaio

            Em publicação de artigo no jornal Folha de São Paulo, do dia 15 de abril de 2007, o historiador Boris Fausto discorre no texto sobre o congelamento e a transfiguração do sentido das palavras na língua portuguesa.
            Primeiramente diz do cidadão português, do qual não cita o nome, somente o sobrenome, Fernandes, que nomeou seu estabelecimento comercial de “Península Fernandes”, por simpatia à palavra “Península”, que não tem nenhuma relação ou similaridade ao referido estabelecimento comercial, pois península é uma porção de terra cercada de água por todos os lados exceto por onde se liga ao continente, eis aqui um caso de transfiguração.
            A seguir cita “comborço”, no congelamento, mas citada no romance de Machado de Assis “Dom Casmurro”, e que equivale hoje o indivíduo amasiado, reles, ordinário.
            Finalmente menciona a palavra “bonde” a qual ao ser transcrita do inglês, “bond”, impresso no bilhete de embarque do veículo de transporte coletivo, já mudou o significado, pois traduzido para o português quer dizer: unir, título, acordo, laço, o que não tem semelhança com o veículo mencionado, faz-se o uso por associação pelo contato cotidiano com a palavra à época, ano de 1870, trata-se então de uma transfiguração. Também associa-se ao “bonde”, o veículo que transportava presos das cadeias ou presídios, e veículos de transporte de conjuntos artísticos e de grupos literários etc.
            Também “bonde” era o jogador de futebol muito limitado, o “perneta”, o “Perna de pau”, mais recentemente o “cabeça de bagre”, pois no ano de 1942 o jogador Leônidas da Silva ganhou essa alcunha por fazer jus a ela, porém num domingo de jogo entre Palestra Itália e São Paulo, time ao qual o jogador pertencia, o locutor que era São Paulino, Geraldo José de Almeida, bradou “Gol do São Paulo”! Diante do gol espetacular marcado pelo Leônidas: “O bonde de duzentos contos de reis marca um gol espetacular de bicicleta”
            Após todas essas variáveis da palavra bonde, registro aqui minha experiência pessoal, isto porque não vi nos anais da prosa e nos textos literários tal menção. Durante as décadas de 50 a 70, período da minha infância,  adolescência, e juventude, quando íamos a passeio à noite à estação esperarmos pelo trem de passageiros das oito horas e após seguíamos até a praça central ao lado da igreja matriz e ali ficávamos a dar voltas no entorno do coreto central.
            A esses passeios noturnos dizíamos: vamos ao “Fut”,  em menção ao “Futting” do Inglês, (caminhar a pé) era comum casais casados e namorados caminharem de braços dados e a isso dizíamos: João e Maria estavam andando de “bonde” ontem à noite na praça da matriz. Portanto, casais caminharem a pé, de braços dados era estarem de “bonde”.
            Em busca de embasamento teórico para a origem da palavra “bonde”, em alusão a mau negócio, o jogador de futebol limitado, etc, encontrei no DICIONÁRIO BRASILEIRO DE FRASEOLOGIA, à página 189, a seguinte explanação: “BONDE”. Comprar um bonde. Levar um logro. Reminiscências de anedota de um mineiro que foi enganado por um espertalhão que lhe vendeu um bonde de companhia de Carriz, Força de Luz do Rio de Janeiro. Cair no conto do vigário. Fazer um mau negócio(TC). Ser ludibriado quando se calculava fazer negócio vantajoso; ser vítima da própria ganância e ingenuidade (ANS). A expressão se originou de uma notícia de jornal, inteiramente fantasiosa, escrita pelo repórter João Mauro de Almeida, no “Diário Carioca”, em maio de 1929, segundo a qual um homem recém chegado de Minas Gerais, José Pestana da Silva, teria comprado a um vigarista, por doze contos de réis, um bonde da Linha Vila Izabel-Engenho Novo, convencido de que ficaria rico dentro de pouco tempo, tal a afluência de passageiros, alguns instalados até nos estribos do veículo. Aceita como verdadeira, tal notícia foi repetida em outros jornais. Tornou-se frequente, como fórmula de recusa a certas propostas, a expressão: Não sou mineiro, nem compro bondes. (RMJ). Dar bonde. Passar drogas em barreiras e em blitz. “Deu bonde, cara, foi tudo limpo, tudo legal” (JBSG). Roubar um homossexual. “Vou dar um bonde nesta bicha” (JBSG). Do tamanho de um bonde. Muito grande. “...com cada letra do tamanho de um bonde” (MLM 82) (TC). Diz-se de coisa volumosa, alta, de grandes proporções (NA).

            Como bem disse Boris Fausto, “os signos tem vida e portanto, nascem, vivem, alguns morrem, ficam congelados ou se transfiguram”, e essas informações são importantes para que não nos percamos ao fazermos uso da nossa língua, principalmente os mais jovens das três ultimas décadas e doravante. 

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

CRÔNICA

A praça e o tempo

            Há algum tempo tenho me sentido persuadido a escrever sobre a praça Lauro Gomes, logradouro na área central da cidade de São Bernardo do Campo, espaço amplo, quase plano, de formato retangular, que soma  aproximadamente cinco mil metros quadrados e de cuja data de inauguração não tenho notícia. No centro da praça há um busto em bronze de Wallace Cochrane Simonsen,  homenagem por ter sido ele o restaurador da autonomia do município,  datada de 11/01/1945. A partir do  ano de 1955, Lauro Gomes, que exercera dois mandatos, passou a ser prefeito da cidade e nesse período, uma de suas realizações fora a construção da praça que leva o seu nome. Nos dois lados mais amplos da praça estão: a rua Marechal Deodoro, a principal da cidade, por ser eminentemente comercial e rua Marechal Rondon, que dá frente para o colégio Estadual Maria Iracema Munhoz.
            Conheci  a praça no início do ano de 1970, no alvorecer de minha juventude, ao migrar de minha cidade natal em busca de bom emprego, estudar e lutar por melhores condições de vida. Muita coisa mudou desde então, os costumes, a cultura popular, também a natureza mudou para melhor, a saber,  onde a mão do homem não atuou para depreciá-la. A vegetação da praça nesta primavera está exuberante; os gramados, as árvores de grande porte, como as sibipirunas com seus galhos e troncos; generosos hospedeiros às epífitas, vegetação variada que recobre completamente galhos e troncos como se fora um tapete, sem contudo parasitar a hospedeira; além de tantas outras árvores frondosas e bonitas das quais não me lembro do nome, além das palmeiras gerivá, e a popularmente chamada por coquinho doce; e ainda as frutíferas como: amoreiras, pitangueiras,  abacateiros, mangueiras, jaqueiras e goiabeiras, estas neste ano produziram muitos frutos, para o deleite de alguns pássaros como os assanhaços, sabiás e outros. Emocionante quando ao caminharmos ao lado da praça e vermos no gramado interno, do outro lado da grade de ferro que cerca completamente a praça, o João de barro com bolotas de barro no bico para sua construção ou um inseto para alimentar seus filhotes. Na tarde de ontem, vi um sabiá aos pulinhos pelo gramado com uma minhoca se contorcendo em seu bico, certamente seria a refeição de sua ninhada. Em cada face da praça há um grande portão que permanece aberto durante o dia e é fechado a cadeado no final da tarde para evitar o vandalismo durante a noite, pois antes que a praça fosse cercada, fora flagrada pela polícia, uma moradora de rua, seminua tomando banho na fonte, de formato cilíndrico com um possante chafariz, do qual jorrava jatos de água multicolorida nas noites de outrora.
            O que embelezava a praça e trazia conforto e lazer aos seus frequentadores, hoje está em ruína, a fonte está seca há anos, as instalações subterrâneas da fonte e chafariz tiveram seu acesso fechado por grades de ferro  e cadeado e dos dois lados da porta de acesso há várias e arrepiantes tocas que abrigam as ratazanas. Dentre os bancos de concreto e granito, que são muitos, e confortáveis, de perfis curvilíneos, e traziam anúncios de patrocinadores nos encostos, cinco deles tiveram suas bases de sustentação quebradas por corrosão pelo tempo ou por vandalismo; encontram-se hoje de borco sobre o gramado, como que alguém com vergonha, a esconder dos passantes, o rosto.
            No entorno da fonte, tendo ao lado um pedestal com alto falante e amplificador de som, material de trabalho de um cidadão de aparência humilde, que lá está todos os dias  a vender CDs de música gospel e pregando o evangelho de maneira amadorística, há um pedestal de concreto em ângulo de 45º o qual sustenta uma placa de bronze com os dizeres:
 “FONTE PRINCESA IZABEL A REDENTORA”
            A beleza e os encantos da praça é também  maculada pela grande quantidade de barracas e carrinhos de vendedores ambulantes que obstruem muito dos espaços das alamedas e também a freqüência de alguns desocupados aos quais há que se ter cuidado com a proximidade; estelionatários oferecendo variado produto de roubo, outros que subtraem aparelhos celulares aos distraídos e até prostitutas oferecendo favores sexuais aos passantes.
            Dos costumes, os quais mencionei no início, há dois remanescentes, que de algum modo traz certo charme aos românticos que os vivenciaram àquele tempo e aí estão para testemunhá-los. Falo aqui dos engraxates, que hoje estão quase em extinção pelo fato de que quase toda a população usa tênis, das crianças aos idosos. Conheci nos anos setenta, um engraxate, aparentando uns cinquenta anos de idade, ao qual chamavam por Zezinho, um mulato de baixa estatura, usava chapéu de tecido e estava todos os dias na esquina da rua Marechal Deodoro com a Tenente Sales, na lateral da praça, muito querido pelos comerciantes e público em geral, que passavam todos os dias para ouvir dele grandes gargalhadas, provocadas por piadas que a ele contavam providencialmente. Zezinho morrera, não me ocorre a data. Hoje, no mesmo local há dois engraxates, um homem e uma senhora; um pouco adiante, além da esquina, pela Marechal, há outro, os três aparentam ter em torno de cinquenta anos ou mais. Outra atividade que persiste na rua Marechal junto às grades da praça e pode ser visto por quem por ali passa são as ciganas, a oferecerem-se para ler as mãos dos incautos, numa alusão a preverem o futuro e a sorte, sob pagamento; ostentando seus vestidos rodados e longos além de extravagantemente coloridos; trazem também muita bijuteria pelos braços mãos, pescoço, orelhas e ouro nos dentes; exibem fielmente o mesmo estereótipo que vislumbrávamos a mais de quatro décadas.
            O que não tenho mais visto na praça é o vendedor de óleo de peixe Piraquê, o peixe elétrico, esse óleo, segundo o seu vendedor, combatia dores reumáticas, vinha em um pequeno vidro na cor marrom, com cerca de 100 mg de conteúdo, com um rótulo e inscrições em preto e branco; o vendedor abria uma enorme mala e dela tirava o produto que acomodava sobre um tapete e também o maior atrativo e chamariz da freguesia, um enorme lagarto teiú, que permanecia imóvel e indiferente à curiosidade dos circunstantes em burburinho, tal era a novidade. Rio ainda hoje ao lembrar das noites nos fins de semana em que íamos à praça, era costume dos jovens postarem-se ao lado das alamedas da praça enquanto as moças davam voltas de braços dados umas às outras para serem vistas pelos expectadores atentos. Certa noite estávamos na praça, eu e um grupo de amigos, moradores em  pensões localizadas na vila Gonçalves e dentre o grupo um se destacava, por ser muito brincalhão, o Mauro Gabriel.
Duas jovenzinhas de cerca de dezoito anos de idade,  irmãs gêmeas, eram conhecidas de todos, pois vendiam bananas pelas ruas com  cestas, daquelas feitas de bambu, em cada uma das mãos, oferecendo de porta em porta. Certa noite, ao passarem as duas irmãs pelo nosso grupo, o Mauro Gabriel disse em voz alta: “Olha as bananeiras”, ao que imediatamente, a mais espevitada delas mirou-o frente a frente e respondeu-lhe: “Bananeira é a P.Q.P.”; rimos a todo o pulmão, todos entre os amigos e também aqueles que estavam por perto e entenderam o ocorrido, inclusive o protagonista do episódio hilário, sem se abater com a surpreendente resposta. Imagino que se daqui a quatro ou cinco décadas, alguém que conheceu a praça  há pouco ou a está conhecendo agora, terá a iniciativa de fazer uma retrospectiva, e que diferenças e semelhanças relatará, assim como o faço agora; quem estará ali para testemunhá-la ?  Só o tempo, o dirá!
                                                                                                                      Enéas Antonio Pires            

                  

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

CRÔNICA

Os sabiás voltaram
           
Às quatro horas da manhã, ao acordar, tenho a maravilhosa surpresa do som melodioso do canto de um sabiá, (Turdus rufiventris) interrompendo o silêncio da madrugada, entre os galhos  de uma sibipiruna. Segundo a crença Tupy, o sabiá é “aquele que reza muito”.  As árvores que enfeitam as ruas de São Bernardo do Campo são na maioria as sibipirunas, mas há também as uvalhas, as jambolão, as quaresmeiras e as palmeiras gerivá, oriundas do Bioma Mata Atlântica; além de outras menos notáveis.  Toda essa nomenclatura arbórea me fora informada gentilmente pelo biólogo e detentor de outros talentos, o meu amigo José Vieira, durante os anos em que juntos trabalhamos.
            Os sabiás irradiam poesia nas primeiras horas da manhã, em que o negrume do asfalto e o silêncio soturno do período nos oprimem a alma. O título deste texto é uma retrospectiva a uma música que fizera muito sucesso, lançada acerca de três décadas passadas, pelo Trio Parada Dura, intitulada “As andorinhas voltaram”, sendo que as andorinhas são pássaros migratórios, por isso o verso diz: “As andorinhas voltaram”. Quando digo que os sabiás voltaram, significa que eles voltaram a cantar, pois eles  são sedentários e têm o período certo do ano em que cantam e encantam ouvidos e mentes de pessoas que como a mim os admiram.
            A partir do início do mês de agosto até o final de dezembro eles cantam muito, em  vários e diferentes acordes, sendo que a fêmea canta numa freqüência bem menor que o macho, diferente de outros pássaros que possuem um único cantar, invariável. Pelo canto os sabiás secundam os humanos quando querem chamar à atenção uma mulher, desde exibir os músculos adquiridos em uma academia ou outro qualquer atrativo que funcione segundo a intuição de cada um; o sabiá canta para demarcar território e atrair a fêmea para o amor, o acasalamento e a seguir constroem seus ninhos e criam seus filhotes preparando-os para serem adultos no próximo ano. Conforme nomenclatura, assim como os papagaios, os sabiás são fieis  por toda a vida, sendo que só há  a  separação do casal  pela morte de um deles.
            Os sabiás têm a plumagem predominantemente na cor marrom claro, parecido com chocolate, nas costas e de um alaranjado a vermelho ferrugem na barriga, tanto os machos quanto as fêmeas.  Eles se alimentam de frutos, sementes e insetos que encontram nos galhos das árvores e no solo entre folhas secas das florestas ou nos gramados e ainda nos canteiros de flores e nesse particular eles se diferem dos outros pássaros, pois ciscam  como as galinhas em busca de minhocas e outros insetos, pude observar isso no canteiro de flores de minha mãe, a dona Rosa, sendo que após a visita dos sabiás ela recolhe a terra que eles jogaram no piso do corredor, de volta ao canteiro.
            Os sabiás são graciosos também quando caminham pelo solo, eles se movem aos pulinhos intercalados por breves pausas e agitar frenético e gracioso da cauda. Ano passado, certa manhã eu caminhava pela calçada de uma rua próxima de onde moro e para feliz surpresa levantei a vista para o galho de uma sibipiruna e lá estava a mãe, orgulhosa, na borda do ninho e quatro delgados pescoços em riste rumo ao infinito sendo alimentados, fiz uma foto com o celular e senti ter ganho o dia. Esses pássaros  me encantam desde os meus oito anos de idade, era novembro, fim do meu segundo ano escolar, ao subir ao topo de uma mangueira em busca das primeiras mangas que amadureciam, descobri um ninho com quatro filhotes, e ao me aproximar escancararam os bicos, na expectativa de que a mãe se aproximava para alimentá-los, se enganaram e eu sabendo estarem famintos, amassava as formigas doceiras que passeavam pelos galhos da mangueira e as depositava direto nas gargantas dos filhotes até que a mãe aparecia com piados lamentosos e ameaçadores e me expulsava mangueira abaixo.
            Em sendo o sabiá o nosso personagem, não podemos nos esquecer do poeta Gonçalves Dias, quando em seus amargos dias no exílio, escrevera o celebre e inesquecível poema que iniciava pelos seguintes versos: “Minha terra tem palmeiras, Onde canta o sabiá; As aves, que aqui gorjeiam, Não gorjeiam como lá”.       

Enéas Antonio Pires