quarta-feira, 21 de novembro de 2012



BREVE INCURSÃO EM GARIMPOS DE SELVA
Conto
            Foi uma viagem atípica, de contrastes ante a beleza e exuberancia da floresta e rios amazônicos e os perigos inerentes à maneira de viver e trabalhar naquele espaço quase inóspito da selva amazônica. Chamou-me à atenção o grande afluxo de pilotos e mecânicos de aviões à região dos garimpos de ouro no entorno da cidade de Itaituba, no sul do Estado do Pará, já que o acesso às lavras do garimpo só era possível a bordo de aviões monomotores, pela distancia e imensidão da floresta.
            No final do ano de 1981 brevetei-me piloto comercial de avião tendo passado por dificuldades financeiras pelo alto custo do aprendizado, eu tinha em mente trabalhar como piloto para satisfazer o ego e tambem ganhar dinheiro já que nos garimpos os pilotos sobreviventes ganhavam muito bem. Digo “sobreviventes” porque eram muitos os que morriam em acidentes, pelo quanto eram arriscadas e perigosas as operações nas pistas de grarimo. Em contato com os irmãos Paulo e Renato, meus primos, que para lá rumaram havia algum tempo em busca de trabalho, pois eram mecânicos de aviões e tornaram-se arrendatários de oficina de aeronaves na Empresa Crepuri Taxi Aéreo, cuja frota era composta por 12 aeronaves, sendo: 6 Cessna 210,  4 Minuano e 2 Carioca.  Resolvi conhecer e sondar as possibilidades de trabalhar como piloto, apoiado por meus primos.          
            Viajei de Araçatuba, cidade natal de meus primos e seus familiares com destino a Cuiabá, capital de Mato Grosso, em companhia do Renato, o mais novo dos dois irmãos, a bordo de um avião turbo-helice, modelo Fokker da empresa aérea TABA, Transporte Aéreo da Bacia Amazônica, e de lá, pela mesma companhia, seguimos até Itaituba, num aparelho também Fokker, porem muito mais velho e barulhento que o anterior, esse não tinha comissárias de bordo, só comissários. Nesse voo, eu e Renato esvasiamos uma garrafa de natu nobilis,  pois comecei a sentir os primeiros sinais do local hostil ao qual eu me dirigia  já na escala do voo na cidade de Alta Floresta, com pista de pouso asfaltada e acomodações do aeroporto construidas em madeira, tendo dos dois lados da pista de pouso a floresta densa com enormes troncos de arvores. No momento do pouso estavamos sob chuva moderada, quando encostou ao lado do avião o caminhão tanque com o combustível Jet A1, querosene de aviação e o abastecedor com um guarda chuva protegendo a entrada do tanque sobre a sas do avião, o abasteceu.
            Não posso me esquecer de que as  minhas passagens aéreas foram custeadas pelo Renato, meu primo e companheiro de viagem, tal era crítica minha situação financeira no ato da viagem. Tentei ressarci-lo dos custos tempos depois porem ele não o aceitou. Durante os dois voos, solicitei aos comandantes viajar na cabine, e fui autorizado por ambos, pois eu estava ávido por saber o quanto possível sobre os voos naquela região de floresta, e tive muita receptividade de ambos durante os voos.          
            Chegando em Itaituba fui hospedado na casa de meus primos, não posso esquecer de que o Zezinho, irmão cacula dos dois também dividia a moradia e o trabalho com eles. Itaituba é localizada à margem esquerda do rio Tapajós, no Sul do Estado do Pará. Morávamos a menos de 200 metros da margem esquerda do rio, sob um calor insuportável de mais de 40º e lembro me de que para dormir, só o conseguiamos com o ar condicionado ligado a noite toda. Não havia chuveiro elétrico, a água vinda do Rio Tapajós era naturalmente morna.
            Já no meu primeiro dia no local, fiu apresentado a um piloto, o Florindo, um paulista da região Noroeste do Estado de São Paulo que prontamente convidou-me a acompanhá-lo ao primeiro voo do dia a um garimpo que tinha o estranho nome de “invasão” o que denotava hostilidade nas relações humanas, por conflitos de interesses. Esse garimpo fazia parte do complexo de garimpos pertencentes à Fazenda Crepurí. O voo tinha duração de duas horas e meia para ida e a mesma duração na volta, e voávamos a grande altitude e sempre que possível próximo à margem de grandes rios, por prevenção de alguma emergência durante a viagem sobre a floresta, com o rádio de comunicação em frequencia livre, ligado, pois o espaço aéreo na região tinha tráfego intenso. Só o piloto tinha banco e cinto de segurança, eu ia sentado sobre uma caixa de madeira daquelas que acondicionam legumes e o restante do interior do avião era repleto de carga, na maioria das vezes alimentos, gaz de cosinha, combustíveis, ferramentas e outros.
            Ao avistar a pista de pouso não acreditei ser posível pousar no que parecia ser uma estrada de chão batido, estreita, curta e com várias ondulações, o que fazia o avião sacolejar apesar dos 500 quilos de mercadoria a bordo. Aos lados e nas cabeceiras da pista havia um grande trecho de floresta devastado, com os troncos de árvores espalhados em todas as direções e chamuscados pelo fogo, para viabilizar a aproximação e o pouso dos aviões. Foi uma experiência única e inimaginável até então e uma grande sensação de alívio ao ver a parada do motor do avião, para descarregá-lo rapidamente e voar mais duas horas e meia de volta à base em Itaituba. Enquanto descarregavamos o avião, pude ver além do final da pista a parte trazeira de um avião que não parou a tempo e precipitou num declive deixando à mostra só o profundor e o leme direcional.
            De volta a Itaituba, Paulo perguntou-me sobre minha experiência no primeiro voo e avisou-me de que caso eu quisesse, teria outro voo para um  garimpo próximo a Jacaréacanga, uma base aérea já em território amazonense. Naquela noite, jantamos em um restaurante que ficava no centro comercial da cidade, fui alí apresentado a algumas pessoas, entre elas o senhor Lourival Lemos, tambem conhecido por “Rei da voz”, proprietário da Fazenda Crepurí onde  se encontrava os garimpos crepuri,  sem ilha e cuiú-cuiú, alem  das oficinas e de razoável frota de aviões e aínda a criação de gado para abastecer de carne a cidade e  garimpos. Renato disse ao senhor Lourival que eu fora para lá com o intuito de voar e ele prontamente ordenou que disponibilizassem um avião para que eu comessasse a voar imediatamente. Agradeci-o, tendo em mente a remota possibilidade de pilotar um avião naquelas condições fora de padrão. Conheci também naquela noite, no mesmo complexo comercial, um cassino, coisa inédita para mim até então, contudo, já que estava ali, arrisquei a sorte, joguei e perdi alguns parcos cruzeiros, o que era a moeda corrente à época.
            Na manhã seguinte fui apresentado a um piloto o Vanilson Alves, a quem chamavam tambem por “pé”, por ele ter uma  cicatriz muito grande em um dos pés causada por um sério acidente de que fora vítima, ao saltar de paraquedas. Voamos por duas horas e meia até o destino, um vale ladeado por serras e tendo à cabeceira da pista por onde procede os pousos, uma enorme castanheira com seus grandes galhos superiores cortados a motoserra para viabilizar a passagem aos aviões durante os pousos e as decolagens, o que é feito assustadoramente ao passarmos muito próximo pelo quão crítica é a operação no local; além de que nas decolagens só podem estar a bordo o piloto e um passageiro, caso contrário o avião não passa por sobre os troncos da castanheira. Enquanto descarregavamos o avião, solicitaram ao pé, que levasse um senhor que passava muito mal com malária para Itaituba, com o que o pé prontamente concordou, porem disse que me levaria até a base aérea de jacareacanga distante de lá meia hora de voo e lá eu o esperasse porque o avião não sairia daquela pista com tres pessoas a bordo. Após uma hora de espera em Jacareacanga, tempo em que travei batalha com borrachudos, chegaram, o pé e o enfermo, a seguir chegou na caçamba de uma caminhonete uma senhora doente com malária e tres garimpeiros. Voamos por duas horas e meia de volta a Itaituba, sendo que eu e os tres garimpeiros sadios, desembarcamos na cabeceira oposta da pista de pouso para que o piloto não fosse penalizado pelo excesso de passageiros, pela Infraero.
            À minha chegada ao aeroporto meus primos me deram a notícia do acidente com o Florindo, o piloto com quem eu voara no dia anterior, e por sorte não estava com ele no voo, pois a carga do avião que ao pilonar, pressionou-o com o seu assento ao painel do avião, e ele não morreu por pouco, sendo hospitalizado por alguns dias. Fomos ao hospital visitá-lo e eu perguntei-lhe: Você contunuará a voar? Ele respondeu-me: - Assim que tiver alta volto a voar, tenho minha família para sustentar.
            Na cidade, todos os dias deparavamos com com situações inéditas e chocantes, havia duas famílias de rivais nordestinos, poderosos financeiramente que se degladiavam pelo poder econômico e por isso morriam de tempos em tempos, membros de ambas. Certo dia eu e meu primo Paulo, fomos a uma loja de ferragens para comprar uma bomba de poço e na entrada da loja havia um homem trajando um uniforme camuflado como aqueles que usam os soldados do exercito, portando à mostra uma pistola à cintura e um fusil às mãos, a título de defender os proprietários de emboscada inimiga. Em uma das emboscadas, em que assassinaram vários membros da família, entre os mortos estava uma grávida e a seu lado o feto de seu filho morto, retirado do ventre da mãe pelos assassinos.
            Paulo e Renato me contavam que em determinados garimpos, nas barracas dos acampamentos cobertas por lona preta de plastico, onde os garimpeiros dormiam, à noite morriam muitas pessoas por balas perdidas resultado de brigas ou tiros dados a esmo por garimpeiros embriagados. Depois de algum tempo, cavavam valas no interior das barracas como se fossem sepulturas, para que ali pudessem dormir livres do perigo de serem alvejados e mortos.
            Outro tipo de assassinato bárbaro era cometido contra os garimpeiros mergulhadores que tomavam parte nas equipes das barcaças apoitadas no leito dos rios. Nessas barcaças havia todo o equipamento de extração por sucção e peneiramento, com bombas possantes movidas a óleo diesel, tendo mangueira de cerca de 80 milímetros de diâmetro para sucçionar do fundo do rio: areia, cascalho e seixos de onde separavam o ouro quando houvesse. O garimpeiro mergulhador descia ao fundo do rio tendo um peso às costas para que lá pudesse permanecer sem flutuar, e também tinha uma outra mangueira de menor diâmetro que levava ar forçado ao respiradouro além de uma corda presa à cintura pela qual através de pequenos toques em forma de código ele sinalizava aos que estavam a bordo aliviarem-na para a locomoção ou que o puxassem à superfície quando necessário. O grupo a bordo da barcaça, ciente das posses do companheiro em razoável quantidade de ouro, mancomunados em cruel e sórdida ação criminosa, interrompiam o envio de ar para que ele morresse asfixiado ou afogado caso se safasse do respiradouro em situação de desespero, também não atendiam aos toques em código na corda para o içamento e ao contrário cortavam-na para que a correnteza do rio o levasse. Certos da morte do desventurado colega, apossavam-se do ouro e outros pertences de relativo valor e sumiam na mata em direção a outros garimpos distantes dali.
            Certo domingo à tarde vi um cachorro vira latas de porte médio pulando pela rua com somente uma pata dianteira e uma trazeira cruzadas, a cena me deixou penalizado, então o Paulo me disse: - Essa é uma das barbaridades que os garimpeiros embriagados fazem em fins de semana ociosos. A cadeia da cidade fica junto à calçada e as grades com prisioneiros enroscados a elas, como que atores representando aos transeuntes parece não chocar os moradores locais, parece comum como são comuns para nós as vitrines das lojas nas áreas centrais das cidades.
            Às tardes íamos a uma ilha do rio Tapajós a bordo de uma pequena lancha   do Paulo, meu primo, em um bar de propriedade de uma jovem senhora, que lá vivia com seu bebê. Lá tomávamos cerveja e comíamos tira gosto vendo as travessuras de um pequeno macaco que costumava vir beber cerveja à mesa com os fregueses, ele era uma espécie de mascote do estabelecimento.
            Naquele lugar, nem tudo era sobressalto e acontecimentos desagradáveis e tristes, contava meu primo Paulo, entre tantos acontecimentos engraçados, dois ficaram reclusos em minha memória. Certo dia, indo do aeroporto à cidade, distante cercas de tres a quatro quilômetros, havia uma caminhonete parada ao lado da estrada e um caixão com um cadáver sobre a areia e o motorista trocando o pneu da caminhonete. Paulo dirigiu-se ao motorista e perguntou-lhe: - Amigo, o que aconteceu? O outro responde: - Tive que parar para trocar o pneu furado da caminhonete. – E porque você tirou o caixão da caçamba do veículo? – É em respeito ao finado. Paulo saiu rindo sozinho do que vira e  ouvira.
            Num outro dia, no centro comercial da cidade em horário das crianças em idade escolar voltarem para casa com as mães, Paulinho vira, o que não era surpresa às pessoas pelas ruas; animais domésticos de todos os portes, só que nesse dia estavam lá, em meio ao burburinho de pessoas, um casal de equinos copulando tranquilamente no meio da rua para surpresa e deleite dos escolares, que sob puxôes de orelhas e sopapos de suas mães envergonhadas e sob protesto diziam a seus filhos: - Olha pra frente menino e caminha rápido senão vai apanhar!  Paulinho dizia ter rido muito e ria cada vez que nos contava esse incomum flagrante.
            Daquela época só se tem uma certeza, o ouro que saiu daqueles garimpos está espalhado, ornamentando pescoços, orelhas, braços,  mãos, bocas e outras partes da geografia humana de muitas pessoas pelo Brasil e pelo mundo; as histórias, certamente mais tristes que alegres, estão à medida em que o tempo passa, mais raras nas mentes e nos relatos dos seres humanos que la habitaram ou lá estiveram de passagem, remanescentes daquela época de sonhos com a prosperidade, de falência material e humana; e de mim, humilde e breve protagonista daquelas plagas, tenham este pequeno fragmento de História.
Enéas Antonio Pires – Graduado em letras – Português/Inglês