segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012


A FIGUEIRA E O COLIBRÍ

Crônica

Desde a infância sou fascinado pela figueira, árvore que se destaca das demais em variadas nuances. A começar por ser uma das poucas árvores do conhecimento popular citada nos textos Bíblicos, a figueira é talvez a única que quando nasce, tem como hospedeira uma árvore morta, um tronco rente ao chão em estado de decomposição, uma casa abandonada deteriorada pelo tempo ou qualquer tipo de construção em ruína; entre as fendas de uma rocha ou de concreto armado de velhas pontes ou viadutos, calçadas e muros depreciados pelo tempo e descuido, ou até em árvores em pleno vigor ou palmeiras a produzir frutos. Há uma dessas palmeiras a qual chamamos no popular por coquinho doce, cujo nome próprio é “Gerivá”, que fora plantada ha quase vinte anos no quintal da casa de minha mãe. Creio ser essa a única palmeira no raio de alguns quilômetros a produzir frutos e atrair periquitos, maritacas e outros pássaros, para nossa alegria, além de curiosamente ha uns quatro anos ter-se tornado hospedeira de uma figueira que hoje mede cerca de um metro e meio de altura, agarrada ao tronco há cinco metros do chão, com suas raízes como filamentos em direção à terra.

A figueira adulta é a mais exuberante das árvores da Mata Atlântica brasileira. Ela tem tronco de grande diâmetro, galhos enormes, folhas grandes em formato oval, copa achatada que chama à atenção as pessoas por destacar-se das demais árvores na floresta. Também atrai grande variedade de pássaros, com seus frutos, os figos, quando maduros. Há uma dessas árvores que ficou sob meus cuidados desde que nasceu agarrada ao tronco de um pé de manacá que havia no quintal da casa de minha mãe, até que ao atingir meio metro de altura, mudei-a para um vaso plástico, regando e adubando-a até atingir um metro, quando a replantei num grande parque, o Parque dos Pássaros, de formato quadrado, com cerca de 20 mil metros quadrados, gramado, com algumas árvores mal cuidadas e circundado por mansões suntuosas.

Tive o cuidado ao plantá-la, de arrancar a grama num circulo de meio metro, adubando e regando-a no periodo da seca, até que um dia ao visitá-la, já com um metro e meio de altura, encontrei-a caída sobre a grama com o tronco cortado até o meio, pela roçadeira dos trabalhadores da manutenção do parque. Ela ainda estava verde apesar do maltrato sofrido. Voltei imediatamente à casa em busca de ferramentas, algumas estacas de madeira e fitas finas de plástico  com o que coloquei-a de pé, fiz atadura na parte cortada e circundei seu tronco com restos de construção, blocos de concreto e pedras de modo que as roçadeiras não mais a atingissem. Dentre as nuances de que falei no início,  está a de que minha figueira difere das demais no aspecto físico, ela tem o porte das coníferas, com três metros de diâmetro na parte inferior dos galhos, uns seis metros de altura, assemelhando-se a uma árvore de natal, completamente diferente das suas irmãs de copas achatadas.

Bem ...a essa altura hão de perguntar: “E o colibri”? Vamos lá, o colibri tem suas particularidades e toma parte nessa narrativa, ele é uma das menores aves e tem o vôo velocíssimo, o maior número de bater de asas de todos os de sua espécie, se alimenta principalmente do mel das flores, é valente para com os do seu porte e preferência alimentar, as saíras. Ao colocarmos água com açúcar em recipientes apropriados para atraí-los, eles expulsam as concorrentes violentamente, para longe da refeição da qual se sentem donos absolutos. Tive uma surpresa muito agradável da ultima vez que visitei minha figueira, de longe vi que seus galhos estavam carregados de frutos e ao me aproximar, vi voar dos primeiros galhos um colibri e ao olhar para o alto vi preso a um dos galhos o seu ninho. Ele pousara num dos últimos galhos no topo fugindo à minha presença, de lá expulsava outros pequenos pássaros que tentavam pousar.

Outra surpreendente particularidade do colibri, ha alguns anos passados à casa de minha irmã, Vera Leila, no interior de São Paulo, havia um ninho de colibri preso ao fio elétrico e junto à lâmpada que pendia do teto da área ao lado da sala, era inverno e o calor da lâmpada incandescente aquecia a mãe e seus filhotes, além de que ali estavam livres das aves de rapina. Pudemos ver por alguns anos seguidos, talvez a mesma mãe utilizando o ninho provavelmente sob alguns retoques.

Voltando à figueira, junto ao seu tronco, à sombra, havia uma garrafa de dois litros de água mineral, certamente de pessoas que fazem caminhada pela calçada que circunda o parque. Fiquei parado por alguns minutos refletindo no quão compensadores são nossos gestos de preservar e plantar arvores, e no quanto a natureza nos traz de retorno, oferecendo os frutos por alimento, os galhos para abrigar os ninhos e o repouso aos pássaros; a sombra para o descanso, o conforto e a reflexão para nós,seres humanos.

Enéas Antonio Pires – graduado em Letras, Português/Inglês

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Surpresas e crendices de fumantes à moda antiga


SURPRESAS E CRENDICES
DE FUMANTES À MODA ANTIGA



Crônica




Hoje,
após a Ceia de Natal do ano de 2011, em que nos reunimos na residência do casal
Julian e Carol, ouvimos relatos engraçados de minha cunhada Lucia, uma fumante
à moda antiga. Lucia contou-nos que conheceu seu marido Valdinei numa
circunstância que envolvia o cigarro, não o cigarro trivial que a grande
maioria dos fumantes usa, mas, o palheiro, aquele enrolado na palha da espiga de
milho seco, pelos fumantes da roça ou em papel apropriado e comercializado
juntamente ao fumo picado e desfiado, acondicionado em embalagens de 100 gramas
por industrias tabaqueiras. Lucia disse-nos que desistiu completamente do
cigarro de papel, quando ainda jovem pela circunstância memorável do primeiro
contato com o palheiro.


Ouvimos
dos dois que Valdinei, acerca de duas décadas passadas vivia na cidade de
Cordeirópolis, próximo às cidades de Santa Gertrudes e Rio Claro, e num final
de semana viera a Guarulhos visitar parentes e ao final do passeio rumara à
rodoviária do Tietê onde tomaria o ônibus de volta a Cordeirópolis. Como o
tempo de espera era longo, sentindo vontade de fumar Valdinei procurou um canto
num final de corredor, onde pudesse acender seu palheiro sem incomodar com o
cheiro forte da fumaça, os passageiros que como ele aguardavam a hora do
embarque. Ao encontrar o local ideal, viu num dos últimos guichês de venda de
passagens, a inscrição em tamanho grande no vidro: “São Bernardo do Campo”, foi
o suficiente para despertar-lhe o subconsciente e tocar o famoso sino em sua
imaginação.


Valdinei,
assim como Lucia, era leitor assíduo da revista “Sabrina”, que à época trazia
matérias de interesse dos jovens e na seção de cartas, Lucia publicou com seus
dados pessoais e descrição física, o interesse em encontrar para relacionamento
sério, um namorado com determinados atributos físicos e morais aos quais
Valdinei sentiu-se perfeitamente enquadrado. Enquanto tragava seu palheiro, no
corredor da rodoviária, Valdinei pensou, ... É pra lá que eu vou, e de posse da
passagem foi ao encontro de Lucia, em São Bernardo do Campo onde começou o amor
e o relacionamento duradouro, sem esquecer que para selar o feliz
acontecimento, juntos, em contraponto ao “Cachimbo da Paz”, fumaram, (ela pela
primeira vez), o palheiro da Paz e do Amor.


Certo
dia, acerca de doze anos passados, em que morava com o marido e sua filhinha
Camila, na chácara de seus pais no município de Itanhaem próximo à praia de
Gaivotas, contou-nos ela que certa manhã caminhava pela rua principal de Gaivotas
em direção à praia, fumando um cigarro que acabara de fazer, quando passou
lentamente por ela uma viatura com dois policiais militares a bordo parando a
uns trinta metros adiante. La vem
encrenca, balbuciou Lucia consigo, e foi já abrindo sua bolsa, tirando o pacote
de fumo picado, devidamente embalado com os dados do fabricante e aproximou-se
dos policiais pelo lado direito da viatura.


Com
licença, disse ela aos policiais - senhores, antes que eu seja abordada faço
questão de mostrar-lhes que o que estou fumando não é maconha ou algo ilícito e
sim cigarro de fumo industrializado, veja a embalagem do fabricante. O policial
pegou a embalagem com o fumo remanescente, conferiu, deu um sorriso contido e
devolveu-o a ela, desejando-a um bom dia e seguiu. Lucia caminhou vitoriosa
soltando grandes baforadas pelo ar.


Lucia
contou-nos ainda estar há poucos dias passados à calçada defronte sua casa na
cidade de Santa Gertrudes, acerca de 120 quilômetros de São Paulo, a conversar
com sua vizinha enquanto fumava seu cigarro, quando repentinamente irrompeu na
esquina uma viatura da policia militar com dois policiais a bordo, pondo-a de
sobreaviso. Lucia fez uma pausa na conversa com a vizinha, prevenindo-se para
as explicações de praxe. A viatura parou a poucos metros de onde ela estava e
imediatamente ela rumou para lá, sacando do bolso de seu avental a sua
inseparável embalagem de fumo desfiado, e estendendo aos policiais, que após
conferir o conteúdo devolveu-a despedindo-se com um sorriso contido como de
praxe.


Por
falar em crendices de fumantes e adeptos do tabagismo, há uma de origem
indígena, da qual nunca ouvi relato de veracidade. Contou-me certa vez um
amigo, alguns anos mais velho que eu, ter viajado ao Estado de Mato Grosso a
negócios e nos seus contatos por onde esteve conheceu um cacique de uma tribo
indígena que afirmou ser o fumo remédio infalível no combate à calvície.
Segundo instruções do cacique, pega-se uma quantidade de folhas verdes de fumo,
macerando-as através de qualquer processo e a seguir extrair a essência ou sumo
verde que acondicionado em uma garrafa seja mantido em geladeira e à noite
antes de dormir, untar a área calva com o produto, protegendo devidamente para
que não suje a fronha do travesseiro, repetir o uso por trinta dias. Eu nunca
soube da eficácia desse tratamento.


Crendice
ou experiência de vida? Fui criado no campo e lá vivi até os 21 anos de idade,
e meu pai, que era fumante e levava no bolso canivete, um pedaço de fumo de
corda, palha macia da espiga de milho seco e a binga, uma versão simples do que
hoje é o isqueiro, com o que fazia seus cigarros, aprendeu com os mais velhos a
crendice e internalizou pela experiência de vida que após longa estiada, quando
o fumo de corda umedecia, era prenúncio de chuva sem demora. Na verdade, o
fenômeno é resultado do aumento da umidade relativa do ar que faz com que o
fumo umedeça, e que a chuva está prestes a chegar. A chuva ou precipitação acontece quando a
umidade relativa do ar atinge 100%.


Tivemos
uma surpresa nada agradável, eu e meu irmão João, mais novo que eu, quando
éramos adolescentes, certo dia trabalhávamos na roça no período do alto verão,
e tínhamos a nosso alcance uma mata fechada para onde íamos às vezes descansar
à sombra de uma frondosa imbaúba, árvore que produz minúsculos frutos vermelhos
que são fonte de alimentos a pequenos pássaros.


Meu
irmão, enquanto descansávamos improvisou, usando uma espécie de cará, selvagem,
chamado caratinga, que sobre a terra arada ficava seco e fácil de ser transformado
com um canivete em cachimbo. Ao lado de onde descansávamos tinha uma espécie de
bambu em miniatura chamado popularmente por taquari, cujo gomo foi transformado
no canudo do cachimbo. Um trabalhador diarista que trabalhava para o meu pai
ofereceu-nos o fumo e a binga para acender o cachimbo. Meu irmão foi o primeiro
a ter a terrível surpresa, pois tragou a fumaça do cachimbo até o final e
começou a passar mal do estômago, pálido e a suar muito. Ainda alertou-me a não
fumar.


Não
o obedeci e ao contrário ainda zombei do seu alegado mal-estar, fumando o meu
cachimbo até o final e por meu turno e castigo passei mal tanto quanto a ele.
Tomamos água quase gelada da moringa a pretexto de amenizar o mal-estar e
permanecemos por mais de duas horas deitados à sombra da imbaúba e juramos
nunca mais olharmos para um cachimbo ou fumá-lo mesmo que tivéssemos que
fazê-lo em ritual, daqueles que faziam antigamente os soldados americanos e os
índios, para celebrar a paz.



Enéas Antonio Pires – Graduado em Letras, Português/Inglês.






Impasse no Restaurante A La Carte e outras surpresas


IMPASSE NO RESTAURANTE A LA CARTE E OUTRAS SURPRESAS



Crônica



Remexendo
anotações de um passado recente a outro remoto há duas décadas, encontrei entre
as recentes uma resposta por e-mail de um saudoso jornalista e cronista a uma
fã, em que discorria sobre os vários tipos de crônicas. Ele iniciou pela
crônica memorialistica, explicando à interlocutora sobre o que ela trata, e
assim foi até a crônica do cotidiano que fala sobre acontecimentos que impactam
a opinião pública em vários sentidos, dependendo do teor do texto.


Ao
folhear minha agenda do ano de 1991, encontrei anotações diárias entre os dias
26 de abril e 26 de julho, período em que morei na França, na cidade de Poissy,
à margem esquerda do rio Sena, distante 25 quilômetros de Paris, tendo como circunvizinhas
as cidades de Nantes, San German e Versailles. A empresa em que eu trabalhava à
época, à qual permaneço até hoje, mandou-me para lá a trabalho, junto a uma
industria automobilística francesa, para participar da montagem de uma grande
máquina, fornecida pela nossa matriz, de origem alemã.


Entre
minhas anotações do cotidiano, algumas me chamaram à atenção, no sentido de
registrá-las, como crônica memorialistica pelo teor surpreendente e cômico do
acontecido. Eu vivia só, em um hotel simples cujo preço da diária correspondia
às minhas ambições econômicas, pagava 100 francos pela diária, o que me
permitia economizar dinheiro suficiente para quitar o consórcio de um carro
novo, que começara a pagar no ato da viagem.


Logo
no início, pesquisei os preços e cheguei à conclusão de que comendo no jantar,
três lanches de um popular fast food, eu dispenderia a metade do que com um
prato, em qualquer restaurante “A la carte”. Determinei que a partir de então,
meus jantares dos domingos às sextas feiras seriam no fast food e somente aos
sábados iria jantar em restaurantes, tal disciplina era em prol do investimento
do qual já falei.


Num
certo sábado de verão europeu, após ficar sentado em um banco de mármore pos
horas à margem do Rio Sena, vendo pessoas de todas as idades a pescar, e no
leito do rio barcos e lanchas luxuosos navegando rumo a Paris e de lá saindo,
até que me lembrei de ir à lavanderia onde havia excelentes máquinas de lavar a
quente e secadoras, alem de sala de espera com revistas e música de boa
qualidade.


Assim
que me sentei e comecei a folhear uma revista, sentou-se um francês próximo de
onde eu estava e começou a assoviar a nossa “Aquarela Brasileira”, de autoria
de Heitor Villa Lobos. Pedi-lhe licença e perguntei sobre a música e de como a
conhecera e ele respondeu-me que conhecia o Rio de Janeiro, onde estivera por
várias vezes e que amava o Brasil e nossa música. Senti um misto de alegria, e
angustia, ao saber que nossa música era apreciada por pessoas do primeiro
mundo, e ao lembrar que ainda permaneceria por um longo tempo por lá.


À
noite do mesmo sábado fui a um restaurante “A la carte”, do qual não me lembro
do nome, localizado no centro da cidade, por onde caminhei lentamente,
admirando a beleza das flores nos canteiros das ruas e alamedas. O restaurante,
instalado em uma daquelas casas antigas com altas e pesadas portas e janelas,
com um ambiente interior muito acolhedor, com vários cômodos repletos de
comensais.


Entrei
e imediatamente acercou-se de mim um garçom ostentando um vasto bigode e
educadamente, falando Francês, conduziu-me a uma mesa com dois lugares e a
seguir entregou-me o menu com vastas e coloridas opções de pratos. Sentei-me e
comecei a folhear o menu a procura de um prato com carne bovina, porem, o menu
só trazia o nome dos pratos em francês, o que me trouxe incômodo imediato, não
aprecio carnes de carneiro e cabrito e tinha a necessidade premente de saber
ser ou não bovina a carne do prato ao qual escolhera.


Prontamente
o garçom de bigodes se aproximou disposto a ajudar-me, porem só falava Francês
e eu perguntava-lhe em Inglês e então se estabeleceu um impasse. O que eu
queria saber era pouco, mas, falávamos línguas diferentes, até que um francês
magro e alto, o proprietário do restaurante acercou-se com o intuito de
ajudar-me, todavia ele também só falava o Francês e o trio que completamos sem
a menor chance de entendimento começou a chamar à atenção todos os comensais
presentes, surpresos e achando graça do impasse. Eu já estava prestes a perder
a paciência e ir embora, envergonhado e admirado por não haver ali entre tantos
franceses, um só que falasse o Inglês para responder à minha pergunta e eis
que, no tumulto em que se transformara ao redor da minha mesa, o garçom de
bigode pronunciou a sonora, curta e monossilábica palavra: POIS, para aliviar a
tensão em que nos encontrávamos.


Levantei
o indicador na direção do garçom e disse-lhe em bom Português: você disse,
POIS, você fala o Português? “Sim, eu sou português”, respondeu ele, só não
sabia se você era ou não. Inquirí-o a esclarecer-me a dúvida sobre o prato
escolhido ou eu iria embora, enquanto todos os que estavam por perto riam
muito. Terminei minha refeição determinado a não mais voltar àquele restaurante,
sem ao menos perguntar pelo nome do garçom português.


Em
uma noite de sábado, fomos ao restaurante “La Chaumjère”, eu, o Ra com sua
esposa Nil, o Vicente e o Ademir, companheiros de trabalho. Nos acomodamos e
enquanto aguardávamos o pedido falávamos animadamente sobre o domingo em que
iríamos ver a corrida de formula um em Lê mans, cidade não muito distante de
Poissy. Nessa corrida estariam competindo os brasileiros Nelson Piquet e Airton
Sena, este no auge de sua carreira e tinha por grande rival o francês Alain
Prost. Nossa grande expectativa era ver Sena ganhar a corrida no país do seu
maior rival.


Em
uma mesa próxima à nossa havia um grupo de cinco jovens, claramente
interessados na nossa conversa, falávamos português e num certo momento um
deles perguntou-nos de onde éramos, sendo que era filho de português e sabia do
que falávamos, os outros quatro eram franceses curiosos, e usavam-no como
interprete da nossa conversa. O Ra, sem perda de tempo disse ao jovem
português: - diga a seus amigos que nós todos iremos à corrida amanhã torcermos
pelo Prost! Imediatamente o jovem transmitiu o recado aos amigos, que eufóricos
agradeceram, fazendo sinais de positivo com os polegares, porem o Ra emendou...
Diga a eles que torceremos para que o Prost quebre as duas pernas!


Os
ânimos dos jovens serenaram abruptamente, chocados pela surpresa, imaginaram
sermos um grupo de brasileiros bajuladores e tiveram um revés inesperado,
fecharam o cenho e se desligaram por completo do que se passava em nossa mesa.
Terminamos nosso jantar com muita vontade de rir, porem nos contivemos diante
do humor negro e seu efeito.


Na manhã do
dia 26 de julho, após 90 dias, deixei a França, com destino a Goeppingen na
Alemanha, em companhia de meu colega de trabalho Ra e sua esposa Nil, em viagem
que durou cerca de 12 horas num velho Passat alemão, que fora designado
anteriormente ao Ra, pois ele e a Nil vieram de Goeppingen, para Poissy.


A
viagem até Paris transcorreu muito bem, porem lá não conseguíamos encontrar a
saída para Stuttgart, de onde rumaríamos à Goeppingen, pois contra nós havia um
mapa em cópia xerox de péssima qualidade, com escala muito alta, impossível de
interpretá-lo, a dificuldade na
comunicação e a complexidade do sistema viário de Paris agravado por muitas
obras nas vias de saída de Paris.


O
nosso ponto de referência era a Torre Eifel que ficava muito próxima ao final
do nosso trajeto entre Poissy e Paris. Rodamos por umas três horas perdidos,
sempre voltando para próximo à Torre Eifel, nosso porto seguro, pois tínhamos a
certeza, de que ali estávamos próximos de nossa saída, só não sabíamos
encontrá-la.


Finalmente,
um de nós avistou uma grande praça com vasto gramado e sugeriu que rumássemos
para lá, para pensarmos com tranqüilidade em que fazer. Estacionamos ao lado da
praça e ao cabo de dois minutos estacionou atrás do nosso carro o que parecia ser um caminhão
de lixo ou betoneira e então meu colega Ra prontificou-se a dar partida no
carro e sairmos do local, momento em que lhe disse: Ra, os espaços são muito
grandes e não há porque sairmos daqui, deixe-me pedir informação ao motorista
do caminhão! Ra respondeu-me com um palavrão, esses F. D. P. só falam Francês e
vamos ficar na mesma.


Saí
do carro em direção ao motorista e perguntei-lhe, em Inglês, pela saída para
Stuttgart, e ele foi pronto a ajudar-nos porem falava Francês, para aumentar o
nosso nervosismo até que enquanto eu e o Ra falávamos em Inglês o motorista
disse a clássica palavra: POIS, caímos todos na gargalhada e perguntei, você
fala Português? Disse ele, “sim, sou português o pá”.


Nos
apresentamos e obtivemos em Português as informações de que precisávamos,
agradecemos e viajamos o resto do dia, admirando os milharais, os campos de
cevada, trigo e outros cereais, rindo do sufoco por que passamos e da surpresa
com final feliz.



Enéas Antonio Pires – graduado em Letras, Português/Inglês





O equivoco do doutor Ludovico


O EQUIVOCO DO DOUTOR LUDOVICO



Crônica




Na
distante Guaraporã, cidade do interior de São Paulo, a mais de quinhentos
quilômetros da capital, aconteceu há
poucos dias um fato curioso, que
provocou risos nas rodas amigos: nos bares, nas praças públicas, nos mercados,
nos salões de beleza, nos pesque pagues e onde quer que se reúnam duas ou mais
pessoas. O protagonista desse episódio é o doutor Ludovico, sexagenário, filho
de imigrantes europeus que ali se estabeleceram há mais de cem anos. Doutor
Ludovico é médico, clínico geral na Santa Casa local desde sua formatura na
juventude. Além de ser um dos cidadãos ilustres de Guaraporã, pelo sucesso
profissional e conhecimento na cidade pelos serviços prestados à comunidade,
doutor Ludovico angariou sucesso financeiro suficiente para entre outras
aquisições importantes, tornar-se fazendeiro, a exemplo de seu pai.


Guaraporã,
terra natal do doutor Ludovico, fora fundada no início do século XX,
precisamente no início da primeira década, estimulada pela passagem de uma
ferrovia muito longa, em que a partir da estação do trem iniciou-se a formação
da cidade.


As
atividades socioeconômicas de Guaraporã são: a agropecuária; a atividade
extrativista da borracha, ainda que em pequena escala; criação de aves e
porcos; cultivo da cana de açúcar para a produção do etanol entre outras como
os pesque pagues. Os pesque pagues são a versão moderna de entretenimento dos
adeptos da piscicultura, local onde se encontram durante as semanas os
aposentados e desempregados. Nos fins de semana para lá rumam pessoas de todas
as idades, de crianças acompanhadas dos pais a anciãos.


Doutor
Ludovico tem por “hoby” ir aos pesque pagues
nos dias de folga, finais de semana e feriados, onde além da pescaria, atende
extra oficialmente a um ou outro paciente que o procura para pequenos conselhos
médicos.


Para
satisfazer a vaidade de alguns e a necessidade de outros poucos, há em
Guaraporã, um aeroporto para pousos e decolagens de aviões de pequeno porte,
onde alguns praticam o vôo desportivo através do aeroclube, outros são
proprietários de aviões para atender a demanda dos negócios em outros estados e
na capital. O doutor Ludovico tem também por “hoby” a aviação desportiva, tem
seu avião para seis passageiros, sendo ele mesmo o piloto, quando viaja levando consigo sua família ou
amigos.


No passado recente, pousei naquele aeroporto
com um pequeno avião procedente de uma cidade vizinha acerca de oitenta
quilômetros de distancia, num vôo em que meu primo PCG reservou-me, sabendo que
mesmo com a minha licença de piloto comercial vencida, aquele vôo seria muito
importante para mim. Essa aeronave passaria por revisão em oficina
especializada onde ele era o técnico responsável, credenciado pelo departamento
de aviação civil.


Nesse
vôo de aproximadamente trinta minutos, o proprietário do avião informou-me que
o rumo bússola para o destino seria de tantos graus, não me lembro agora
quantos, porem aos cinco minutos fora, em que deveria iniciar o procedimento de
pouso, ao tentar ver a cidade e os telhados dos angares, vi abaixo brilhando
sob o sol a pino, o grande e majestoso rio que é o orgulho dos paulistas e
personagem dos mais importantes da história do Brasil.


Tive um súbito aviso de perigo, o
rumo bússola não era aquele que me fora informado, porem mantive relativa calma
deixando a margem esquerda do rio às minhas costas voando em ziguezague para a
esquerda e direita até que após uns cinco minutos vi a bonita Guaraporã e o
aeroporto com sua pista de grama onde pousei aquele pequeno monomotor, com a pompa de um comandante de concorde.


Vaidade
pessoal à parte, voltemos ao fato curioso que trouxe muitos risos aos habitantes
daquela pacata cidade. Certo dia, na monotonia de seu consultório, o que é
corriqueiro em Santa Casa
de cidade interiorana, doutor Ludovico devaneava com as prioridades dos
afazeres de proprietário de fazenda, a saber: os cuidados com as cercas de
divisa nos quatro lados, para que seus animais não fugissem para as
propriedades vizinhas e também para que o gado dos vizinhos não invadissem seu
território, além de outros misteres que preenchem o tempo de um fazendeiro. E
num desses breves espaços de tempo em que se viaja no pensamento, eis que
aparece para consulta uma senhora idosa com problemas reumáticos, queixando-se
de muitas dores. Filomena era o nome da paciente, senhora septuagenária, viúva,
que vive sozinha em casa própria, com a pensão que recebe do falecido marido e
algumas economias angariadas ao longo de toda a vida. A senhora Filomena, conta
com o aconchego dos filhos e netos nos finais de semana, para quebrar a
monotonia que é viver só. Ela descreveu minuciosamente suas dores e angustias
ao médico, que impassível aparentava ouvi-la, porem estava absorto entre o
ondular de suas pastagens ao vento, o cheiro e o mugido de suas reses.


Abruptamente,
em sua confortável cadeira, doutor Ludovico como que ao despertar, curvou-se para
frente e prescreveu maquinalmente a medicação à senhora Filomena. Assinou,
carimbou e recomendou-a a fazer uso do medicamento a cada oito horas, porem
nunca fazer uso do remédio com o estomago vazio.


A boa senhora
agradeceu-o, afinal não teve que pagar pela consulta, pois nas Santas Casas as
consultas são gratuitas; dobrou o receituário, colocou-o na bolsa e saiu em
direção à farmácia, a mais antiga e tradicional da cidade, sem imaginar a
dimensão do equivoco de que fora vítima. Chegando à farmácia, o atendente que
era também proprietário do estabelecimento, atendeu-a prontamente, pela sua
idade, pelo conhecimento e amizade de muitos anos.


- Bom dia senhor Osvaldo... Disse a senhora
Filomena ao farmacêutico estendendo-lhe a prescrição com olhos atentos. – Bom
dia, respondeu Osvaldo após pequena pausa, incrédulo com o que acabara de ler naquele
receituário. – A senhora leu esse
receituário?... Não creio que seja o doutor Ludovico o autor desse disparate! –
Eu não sei ler, sou analfabeta, respondeu a boa senhora. – Ouça o que ele está
lhe passando como remédio para suas dores, disse o farmacêutico: Quatro rolos de arame farpado e três quilos de grampo
para cerca!!!


Justiça seja
feita ao doutor Ludovico, exercer a profissão de médico por cerca de quarenta
anos, sem que tenha cometido qualquer erro profissional, esse pequeno engano há
que ser tolerado e esquecido.


A senhora
Filomena disse ao atendente... - É por isso que ele parecia estar no mundo da
lua, não prestava atenção às minhas queixas! Ela automaticamente prontificou-se
a voltar ao consultório do doutor Ludovico, furiosa, ofendida e confusa, caminhando
rapidamente a fim de desfazer a perfídia, enquanto o gado do doutor Ludovico
ruminava preguiçosamente à sombra das ingazeiras.



Enéas Antonio Pires – graduado em Letras,
Português/Inglês.




O sabiá da metrópole


O SABIÁ DA METRÓPOLE

Crônica



Hoje, no meio
da madrugada, às quatro horas acordei ao
som do gorjeio dos sabiás. Eram vários, no mínimo quatro, cada qual no topo da
fronde de uma árvore. E saibam que sabiá é madrugador, não tem preguiça, é
pontual, não perde a hora de iniciar sua sinfonia, além de que a essas horas
está livre dos predadores de rapina e dos humanos que os queiram ver
engaiolados.

A árvore mais próxima está acerca de oito
metros da janela do meu apartamento, no
terceiro andar, e junto ao farol da alameda. No topo dela estava o mais sonoro
deles, pela curta distancia até seu espectador solitário.

Informei-me
com um amigo que é biólogo e conhecedor de árvores e ele garantiu-me tratar-se
de uma uvalha, que nos meses de Setembro e Outubro frutifica, com belos cachos de frutas parecidas com uvas
minúsculas, alimento apreciado pelos pombos urbanos. As outras árvores,
distribuídas em alguns quintais remanescentes à ambição humana, que ainda não
foram engolidos pelas construções de edifícios, cada qual com seu cantor ao
topo, executando sua melodia.

Sorri de
alegria e meditei, lembrei-me de um provérbio que diz: “nem tudo está perdido”, a natureza reage brava e
surpreendentemente apesar dos seus detratores. Digo isso porque, não fosse os
meses de Setembro e Outubro, em que os sabiás cantam, amam e trazem seus
filhotes à natureza e me fazem acordar feliz com seu canto mavioso, só resta o
cantar dos galos nas madrugadas, para quem tem a felicidade de os
avizinhar. No mais, nas madrugadas dos
outros meses do ano, acordo somente com o som de freadas de ônibus de turismo e
de carretas “siders” que vão abastecer uma multinacional automotiva, fabricante
de ônibus e caminhões nas proximidades.

Os ônibus de turismo saem da rodoviária de São
Bernardo rumo à rodovia Anchieta e estradas do interior de São Paulo. Não quero
dizer que nos meses de setembro e outubro não há barulho de transito, e de
pedestres nas madrugadas, mas que só nesses meses temos o privilégio de sermos
acordados também pelos melodiosos sabiás.

Acordar ao som
dos trinados dos sabiás é impar, em contrapartida, não sei o que é pior, entre
freadas de ônibus, caminhões e música brega em alto volume, pedestres
embriagados nas madrugadas de sábados e domingos, retornando de um salão de
danças localizado na principal via de acesso ao centro da cidade, a proferirem
palavrões inimagináveis. Mas, voltemos aos sabiás, eles estão inculcados em mim
e eu estou impregnado deles desde a minha infância, aos oito anos de idade em
que vivia com meus avós maternos, a estudar no curso primário.

Era uma vasta
e linda chácara, com milharal, canavial, cafezal que ajudei a plantar e cuidar,
pomar com laranjeiras, cajueiros, mangueiras, e uma delas, que era a minha
preferida, não pelo tamanho e exuberância, mas pelo charme, tronco liso e
esguio, uma copada arredondada e bonita. Ah... Ia me esquecendo, o nome da
manga era “peito de moça”, há muitos anos que não vejo mais delas...

Em Outubro e
Novembro, quando as primeiras mangas começam a amadurecer nascem os filhotes
dos sabiás, e sem saber deles, certo dia na minha longínqua infância, ao subir à
copa da mangueira em busca dos primeiros frutos maduros, descobri um majestoso ninho de sabiá, grande, com
musgo verde em toda a sua construção e no seu interior quatro filhotes que
escancaravam seus bicos em minha direção, de olhos fechados ainda, famintos e
confundindo o meu ruido ao de sua mãe ao mais leve toque no ninho.

Eu ficava maravilhado, contemplando a natureza
e sentindo-me dela coadjuvante ao ver que os filhotes tinham fome e eu via a
passear pelos galhos da mangueira grandes formigas, as doceiras, então não
pestanejava, pegando-as entre o indicador e o polegar, e saibam que isso
demanda certo cuidado, soltava-as direto à garganta dos filhotes famintos. Sem
muita demora, era surpreendido pela abrupta chegada da mãe, furiosa, emitindo
um som lamentoso, de guerra, completamente diferente dos seus gorjeios na
madrugada, pela ameaça que eu constituía a seus filhotes, pois ela vinha
alimentá-los. A mãe sabiá expulsava-me mangueira abaixo e com toda a rapidez
que eu conseguia, pelo medo de possíveis bicadas.

O sabiá mesmo antes de cessar sua temporada de canto, o que acontece lá pelo final do mês de novembro, já inicia outra nobre tarefa intuída pela natureza: faz seu ninho, choca seus filhotes e os prepara    para serem os novos cantores do porvir.


Enéas Antonio Pires

Graduado em letras,
Português/Inglês



Tributo a um desbravador


TRIBUTO A UM DESBRAVADOR



Conto




João Bento da Costa era o nome
do protagonista desta narrativa,o qual nascera no dia do aniversário da
cidade de São Paulo, 25 de Janeiro de
1887, na cidade de Cajuru, região nordeste do Estado de São Paulo, próximo à
divisa de Minas Gerais.


Àquela época o sonho de todo jovem ao
completar dezoito anos de idade era ter um emprego e casar-se. Assim fizera meu avô, não fugindo à regra
saiu de sua cidade natal mudando-se para Pirajuí, cidade próxima de onde se
iniciara a construção da estrada de ferro Noroeste do Brasil.


A Noroeste do
Brasil teve o seu início em Bauru, derivando da ferrovia que ligava São Paulo a
Bauru e Estado do Paraná, e seguiu o rumo Noroeste, cruzando os Estados de São
Paulo e Mato Grosso até a cidade de Corumbá, na divisa com a Bolívia,
perfazendo uma extensão de 1097 Kilômetros, onde termina o trecho brasileiro. Mas
não para por aí, a Noroeste percorre o território boliviano em 525 kilômetros
até a cidade de Santa Cruz de La
Sierra
, cujo trecho tem o nome de Brasil-Bolívia, que é
tratado popularmente por “ferrovia da morte”, por motivos óbvios.


Em 1905, sob o
mandato do então presidente da república, Francisco de Paula Rodrigues Alves
(1902-1906), iniciara-se a construção da ferrovia pela empresa construtora
Machado de Melo, cujo proprietário era um dos nove acionistas da empresa belga
“Générale de Chemins de fer et de travaux publics”. A força usada na
construção, no que implica a remoção de arvores e troncos, transporte de terra
para, ora transpor aclives, ora aplainar declives, transporte de trilhos,
dormentes, brita, e todo o material e equipamentos em uso para a conclusão da
via férrea era através da tração animal.


Grandes tropas
de burros puxando carroças eram usadas nessas construções, e tal era a rotina
de trabalho repetitiva, que o condicionamento dos animais dispensava
condutores, tendo um homem no local de carregar e outro no de descarregar a carroça só para dar o aviso de parar e partir aos animais.


Mas porque
burros? Esse detalhe pode suscitar dúvidas e então as esclareço: entre os
animais cavalares e os asininos, esses são mais rústicos e resistentes que aqueles para o trabalho pesado por
períodos longos, por meses e anos a fio. Visto do alto, dizia meu avô, - os
burros alinhados com suas carroças eram como formigas silenciosas em seu
mister, organizadas em suas trilhas.


O objetivo das autoridades brasileiras com a
construção da ferrovia era ligar o Oceano Atlântico ao Pacífico visando a
viabilidade de escoamento de produtos brasileiros, principalmente café e açúcar para os continentes
americano e europeu entre outros.


No ano de 1905
completara meu avô 18 anos. Fora ele
contratado e durante quatro anos, sob muitos percalços ajudou a construir o
trecho de ferrovia entre Bauru e Andradina. Muitos foram os sofrimentos,
causados por doenças como: malária, chagas, febre amarela, e tantas outras
doenças tropicais transmitidas por insetos e pela insalubridade da floresta.


Além dos
recursos precários para a sobrevivência, tais como: morar em barracões cobertos
por lona, com iluminação feita por lampiões a querosene, consumir água dos
riachos pela natureza itinerante dos
trabalhos, uma vez que a cada trecho de ferrovia construída seguia-se
embrenhando pela floresta e levando
consigo a rude e elementar infra-estrutura, rumo ao destino. Os trabalhadores
enfrentavam alem de todas as dificuldades mencionadas, a ganância e a exploração das subempreiteiras, ávidas por
lucros fabulosos, não fugindo à tradição do capitalismo, que aqui se instalara
com a colonização portuguesa, pois essas lhes pagavam salários ínfimos. Esses trabalhadores enfrentavam também o
ataque de cobras e insetos peçonhentos, onças e emboscadas freqüentes de índios
inconformados com a invasão de seu território, a selva bruta.


Ao ser
contratado, antes mesmo de receber as ferramentas de trabalho, ofereceram-lhe
uma carabina e uma bolsa cheia de balas (projéteis), para defender-se de onças
e índios, tal era o perigo, a iminência do contato com tais inimigos.


Meu avô recusou-se laconicamente a receber a
arma, explicando-lhes que só Deus o protegeria, apegado que era à sua fé
inabalável; realmente nada de mal lhe acontecera nesses quatro anos em que colegas seus
portando carabinas pereceram, vítimas de ataques, surpreendidos por índios.


Os numerosos
grupos de trabalhadores alojados em barracões, sempre às margens de rios ou
riachos, pela facilidade do uso da água, reuniam-se em longas conversas nos
finais de tardes após o dia de trabalho. Como em todo grupo numeroso de
pessoas, há sempre alguém que se destaca em comportamento social, dos demais e,
contava meu avô haver no seu grupo um homem por nome Ataíde. Ataíde era diferente do grupo em suas peripécias e certo início de noite após
banhar-se no rio, retornara completamente nu pondo em sobressalto todo o grupo
que estava do lado externo do barracão, tendo apontadas para si pelo menos
quatro carabinas prontas para o disparo. Foi um grande alvoroço, pelo susto todo o grupo pensou tratar-se de emboscada de índios, ao que ele levantou
os braços e gritou seu nome, temeroso pela iminência do risco de morte. Ataíde,
cabisbaixo, ouviu de seus companheiros severas criticas e advertências e
comprometeu-se a não mais repetir tal afronta, que por pouco não lhe custara a
vida.


Ao longo da ferrovia, distante da sua origem cerca de 250
quilômetros
, a segunda cidade aquém de Araçatuba é
Coroados, nome dado em homenagem indireta dos desbravadores aos índios, não por
simpatia aos nativos, pois não tinham motivos para isso, já que para concluírem
o trecho de alguns kilômetros de ferrovia que cortavam o lugarejo a companhia
construtora teve sérios prejuízos ao ter que refazer por varias vezes o mesmo
trabalho, pois o que se fazia durante o dia os índios destruíam à noite, sendo
necessária a intervenção do exército, provocando muitas baixas entre os nativos. Coroados, o nome escolhido para o
local era, numa alusão aos cocares de penas que os índios usavam à cabeça,
semelhantes a coroas.


Tambem, na
cidade de Guaiçara, não muito distante de Bauru, os trabalhadores tiveram
conflitos com os índios, sendo atacados em emboscadas e tendo seus trabalhos destruídos durante as noites. Na
cidade de Penápolis havia um fazendeiro por nome João Tupina, que ao construir
sua casa o fizera de maneira estratégica, com muitas e altas janelas e ao
centro da grande sala, sobre a mesa, havia constantemente várias carabinas
carregadas para que quando atacados pelos índios, todos da casa inclusive as mulheres faziam uso das armas
contra os inimigos. O gado do fazendeiro passava as noites fechado no curral,
que era guardado por vários cachorros amarrados ao redor a fim de denunciar a
proximidade dos índios.


Contava meu avô que certa vez em um vilarejo
de nome Napoleão, hoje extinto, e submerso nas águas do lago da usina hidrelétrica
de Avanhandava, mas que conheci na minha
infância quando viajava de trem entre Penápolis, Birigui e Araçatuba
acompanhado de meus pais, de onde tenho apenas ínfimos resquicios de imagem à
mente. Napoleão localizava-se entre Penápolis e Glicério, e certo dia parara o
trem para ser abastecido de água e lenha, e de surpresa apareceu algo em torno
de uma centena de índios, todos com cipós compridos atados às cinturas e
imediatamente ataram a outra ponta do
cipó à locomotiva; presumivelmente com a intenção de detê-la.


O
“maquinista”, nome dado à época ao profissional condutor da locomotiva, temeroso com a presença e atitude dos índios, dera partida a toda a
velocidade que conseguira, causando uma tragédia matando a todos, despedaçados
ao longo da ferrovia.


As comunidades
instaladas ao longo da ferrovia, nas suas dificuldades inerentes ao início do
século 20, conviveram com episódios dignos de registro e divulgação; por
exemplo: as donas de casa para lavar as roupas da família, uma vez por semana
dirigiam-se em grupo de dez a quinze mulheres às margens dos rios, tendo ao
lado a protegê-las um dos chefes de família. Esse guardião semanalmente revezava com os outros
da comunidade, no mister de proteger as
lavadeiras do ataque de índios e de onças, mantendo-se armado de carabina em um ponto estratégico, de modo a ver
com antecedência qualquer aproximação do perigo. O guardião, ao fim da jornada
das lavadeiras, à tarde, tinha o cuidado de apagar o fogo da fornalha
improvisada em pedras onde se fervia a roupa a fim de garantir a limpeza, pois
àquela época não havia detergentes ou congêneres, mas, somente o sabão de soda
de fabricação domestica. Aquele cuidado em apagar o fogo era para despistar os
índios, caso aparecessem; da recente presença dos civilizados e evitar possível
perseguição e emboscada.


Nesses quatro
anos de trabalho, findas as aventuras para meu avô, ele se
desligara da companhia e com as economias que conseguira angariar, comprara um
sítio de 20 alqueires no município de Penápolis, casara-se com uma adolescente
de treze anos de idade, por nome Joaquina Flauzina da Costa, minha avó; tiveram
onze filhos, dos quais quatro morreram
na primeira infância, criaram três homens, e seis mulheres, sendo que duas eram adotivas. Anos mais tarde trocara o sítio por
uma chácara na cidade de Glicério distante uns trinta quilômetros, onde
permaneceu até o fim de sua vida.


O penúltimo de seus filhos, Antonio Bento da
Costa, meu tio, sendo o mais novo dos
homens trabalhara em uma serraria desde a infância até em torno de seus trinta
anos, já casado e vivendo junto aos pais na referida chácara. Certo dia Antonio
fora despedido; perdera o trabalho de
toda sua vida até então, mas não baixou a cabeça, a exemplo de seu pai, foi à
luta e começou a trabalhar em uma companhia de recuperação e manutenção da
ferrovia, aquela a qual seu pai ajudara a construir ha muitos anos passados.
Tendo naquela época uma tecnologia avançada à disposição, em se comparando à
época de seu pai, todo o trabalho fluía com muita rapidez e estando Antonio e
sua equipe trabalhando no município de Porto Murtinho, no estado de Mato
Grosso, como que em retrospectiva a seu pai, foram; ele e seus companheiros
hostilizados pelos índios da tribo Xavantes, que insatisfeitos pela
movimentação dos trabalhadores dentro de sua reserva, queriam vê-los fora dali,
apesar de estarem os trabalhadores atuando nos limites da via férrea. Ficaram
por alguns dias sob tenção e medo, reclusos em um vagão de aço da NOB, Noroeste
do Brasil, até que a direção da companhia junto às autoridades locais
negociaram com o cacique dos Xavantes, presenteando-os com facões, espelhos,
panelas e outros utensílios, em troca do livre transito e trabalhos da equipe.


Meu avô,
nesses anos em que vivera como pequeno agricultor, tudo lhe transcorrera com
relativa normalidade para um chefe de família da época.


Estando todos
os seus filhos e filhas já casados, muitos netos e dois bisnetos a acercá-lo em dias de encontros familiares
até que em Agosto de 1967, deixando um legado de coragem, bom caráter e
honestidade, morrera aos 80 anos de
idade, deixando a seus amigos e descendentes a história da sua admirável vida.



Enéas Antonio Pires


Graduado em Letras, Português/Inglês