MONÓLOGO FELINO
Lembrando meus ancestrais e o passado
O que faziam e o que faço agora
Me empanturro e aqui faço hora
Não caminho no cimo do telhado
Não aprendi a caça aos roedores
Tampouco a quaisquer outros vertebrados
Ingiro alimentos importados
Desfruto de afagos e langores
Usufruo de regalias sem fim
Novos tempos me garantem mordomia
Sei, jamais serei couro de tamborim!
Partilho esse espaço com senhoras
Enquanto se realiza a digestão
Durmo e sonho com o correr das horas
Enéas
quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019
quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019
POEMETO FISIOLÓGICO
Alguém fala por mim porque não falo
Histórias de uma vida de aventuras
Permeando vitórias e agruras
Na verdade eu sou o próprio falo
Me apelidam depreciativamente
O poeta me chama por mangalho
O semi-analfabeto por caralho
Por aí vai indefinidamente
Protagonizo muitos uis, ais, oh yes
Gemidos, peidos, gritos e muito mais
Na cabine de comando e no convés
Nas palhoças assim como nas mansões
No alvorecer, noites e madrugadas
Acelerando mentes e corações
Enéas
GUARUJÁ
Paredões íngremes multicoloridos
Contrastando com o anil do oceano
Burburinho de um vai e vem humano
O que se passa por detrás dos vidros
Do outro lado de cada janela
O que acontece, comemoração
Amizade e confraternização
Celebração com cores da aquarela
Na areia, pombos garças, gaivotas
Disputam os espaços com turistas
Que vislumbram ao longe as ilhotas
Ao ir-me embora o que me receia
Ao ser questionado se gostei ou não
Responderão, minhas pegadas na areia
Enéas
domingo, 24 de fevereiro de 2019
ODE A UM ANTI-HERÓI
Mentecapto ditador torpe e vil
Subjugou milhares, pobres infelizes
Ignorando dores e cicatrizes
Exterminou pelas balas do fuzil
Foi embora magro, feio e assaz
Corrompeu uns, detrimento de milhões
Intimidou por baionetas e grilhões
Causou inveja e desdouro a satanás
Deixou bens acumulados, tesouro
Mágoas e ressentimentos atrozes
Surdo apego pela posse do ouro
Atualmente deve estar sentado
Refletindo sua história imbecil
No colo do capeta, aposentado
Enéas
terça-feira, 31 de janeiro de 2017
ODE À PRIMAVERA

Ode à primavera
Ipê frondoso, belo e colorido
Sobressai entre a flora deste espaço
Obreiros da transformação do aço
Acrescentam às vidas mais sentido
Sobrevive o tão formoso abricó
Que fora há alguns anos plantado
Floresce, frutifica e ignorado
Permanece incólume, belo e só
Pequenas azaléas coloridas
Surpreendentemente graciosas
Trazendo encanto e graça a tantas vidas
Não nos esqueçamos das ingazeiras
Louros, pinus, cítricas e outras tantas
Além das graciosas goiabeiras.
Enéas
ODE A UM ANTI-HERÓI
Mentecapto
ditador torpe e vil
Escravizou
milhares de infelizes
Ignorando dores
e cicatrizes
Exterminou pelas
balas do fuzil
Foi embora
magro, feio e assaz
Corrompeu uns,
detrimento de milhões
Intimidou por
baionetas e grilhões
Causou inveja e
desdouro a satanás
Deixou bens
acumulados, tesouro
Mágoas e
ressentimentos atrozes
Surdo apego pela
posse do ouro
Atualmente deve
estar sentado
Refletindo sua
historia imbecil
No colo do
Demônio, aposentado.
Enéas
quarta-feira, 16 de março de 2016
CRÔNICA
DIVERSIDADE
NO PARQUE DA JUVENTUDE
Na ultima ida de minha nada disciplinada jornada de
caminhadas, intercaladas ao trote, num dos melhores espaços destinados a tal
mister e outros mais, trata-se do Parque da Juventude no centro de São Bernardo
do Campo, separado do Paço Municipal pela avenida Faria Lima, isso aconteceu
acerca de cinco a seis semanas passadas. Ao mencionar minha indisciplina à frequência
das atividades físicas, quero frisar que não é por falta de tempo, pois tempo,
infelizmente tenho muito, mas por falta de determinação e devo admitir,
preguiça.
O parque é estruturado para o lazer e entretenimento para
pessoas de todas as idades, de um aninho aos cem anos ou mais, sendo que as
instalações para a prática do Skate toma em torno de quarenta por cento de toda
a área do parque e é considerado um dos maiores e mais modernos da América
Latina.
Para os pequeninos há um mini parque infantil com
balanços e outros brinquedos em madeira e corda e piso sintético, para os
adultos, uma área de aquecimento e ginástica destinada principalmente aos
adeptos das caminhadas e corridas, e ainda no extremo oposto do parque há
torres de pedra para a prática assistida de rapel, um palco amplo para shows
musicais com amplo espaço para plateias de pé, uma grande pista medindo
seiscentos metros de extensão, asfaltada, destinada às caminhadas e corridas,
ladeada por cerca viva em arbustos de cor dourada, chamados Pingo de Ouro,
permanentemente muito bem podados em formato quadrado. A pista tem cerca de
três a quatro metros de largura e é demarcada a cada cem metros em sua
extensão, tendo nas laterais muitas e frondosas árvores, palmeiras e flores
como azaleias, quaresmeiras e outras. Em todas as alamedas do parque há as
cercas vivas de que falei, cuidadosamente podadas.
Há ainda em estado de deterioração, pelo abandono,
instalações do que foi até uns oito anos passados, uma tirolesa com alta torre
para embarque e área de aterrissagem, numa extensão de duzentos e cinquenta
metros aproximadamente.
Em uma das faces da pista de skate há uma área livre onde
jovens senhoras ocupam para praticar ginástica, com seus equipamentos
específicos e personal trainers, vê-se que são pessoas de bom poder aquisitivo;
ao lado, na pista de caminhada encontramos adolescentes de ambos os sexos com
seus inseparáveis aparelhos celulares e fones de ouvido e jovens, adultos e
idosos, a maioria devidamente vestidos e calçados para a prática de caminhadas
e corridas, outros, principalmente idosos, com vestimenta e calçados
inadequados e um ou outro caminhando com dificuldade e até mancando,
infelizmente, o que tem me causado pena.
Há também razoável quantidade de jovens e principalmente adolescentes
que para lá se dirigem a fim da paquera e namoro, creio haver mais de uma
história de uniões de casais em que o parque tenha sido o palco do primeiro
encontro. O meu tempo de
permanência no parque é em torno de uma hora e meia, sendo uma hora de
caminhada e trote, distribuído assim: quatrocentos metros em caminhada rápida e
os duzentos metros restantes da volta em trote em baixa velocidade; a meia hora
final eu me dedico a exercitar abdominais e embaixadas.
Na parte central do parque, há instalações sanitárias em
péssimo estado de conservação, instalações para pronto atendimento em caso de
socorro médico e também instalações de administração do parque. Na parte
superior, há uma loja de skate e acessórios e também uma lanchonete e outros
espaços dos quais não sei a finalidade e ainda acesso ao que fora no passado o
embarcadouro para a tirolesa a qual mencionei há pouco.
Presenciei algo inusitado, quando estava a meia hora de
minha caminhada ao cruzar com a alameda de entrada do parque, havia uma
pardoca, (fêmea do pardal), entre dois filhotes de Chupim, ambos com o dobro do
tamanho da mãe adotiva, numa choradeira característica de filhotes pedindo por
alimento e ela como toda boa mãe administrava a súplica com relativa
tranquilidade. Para quem não sabe, o chupim é um pássaro de pequeno porte que velhacamente
põe seus ovos no ninho de outro pássaro, que inocentemente os choca e cria os
filhotes junto aos seus e por seus os considera embora tenham porte e coloração
diferentes.
Ri sozinho, já que há muitos anos presenciara cena
semelhante, embora no passado tenha visto isso muitas vezes; e imediatamente vi
na natureza incomum e instintiva do chupim, forte semelhança com certos
racionais e pensantes seres humanos, espertalhões que ultrajam e ludibriam os
seus iguais.
Enéas
Antonio Pires
domingo, 21 de fevereiro de 2016
CRÔNICA
Ano
novo, reminiscências e atualidades.
Ano novo é dia de celebração, encontros de familiares,
parentes e amigos e através deles conquistarmos novos amigos e às vezes
propiciarmos novos e duradouros encontros e relacionamentos para toda a vida,
quantas histórias terão como ponto de partida esse dia! Nessa data, todos os humanos despedem-se do
ano que finda, desejando e mentalizando que o ano que se inicia seja diferente
e melhor em todos os aspectos que norteiam a vida humana. Especificamente nesse
ano de 2015, que se finda, não deixará saudades para a esmagadora maioria da
população brasileira, pela caótica situação sociopolítica e financeira do país
e de seus cidadãos, vítimas de um governo corrupto e incompetente, na verdade,
um desgoverno; defensor de uma ideologia populista, do atraso e da perpetuação
no poder, em detrimento das instituições e do povo.
Esta data marca, eu creio, a vida de cada um de nós, num
determinado período da vida, ou em mais de um; digo isso porque marcou a minha,
aos meus oito anos de idade, eu iniciara naquele ano, 1957, o meu segundo ano
escolar. Eu vivia com meus avós maternos, João Bento da Costa e Joaquina Flausina da Costa, em uma chácara de sua propriedade na periferia da pequena
cidade de Glicério, na região noroeste do Estado de São Paulo, pois meus pais
moravam em fazenda distante, em região desprovida de escolas. Lá permaneci por
quatro anos, período correspondente ao quarto ano escolar da época. Naquele tempo, a Ferrovia Noroeste do Brasil
funcionava plenamente, eram muitos trens de cargas e de passageiros que
passavam diariamente, puxados pelas charmosas, fumegantes e barulhentas
locomotivas de origem inglesa, movidas a vapor d’água por combustão de lenha,
as “Marias Fumaças”, assim chamadas graciosamente pela população da época. Na
pequena e pacata Glicério, (homenagem ao General do Exercito brasileiro,
Francisco Glicério, 1846-1916, nascido em Campinas, SP, por ter sido ele
importante colaborador na formação da República do Brasil) daquele tempo, todos se conheciam, desde
o proprietário da única indústria da cidade, uma “Serraria” ou Madeireira de
grande porte que processava gigantescas toras de peroba vindas do Estado de
Mato Grosso; seus funcionários, funcionários da Estação do trem: portadores,
manobristas, telegrafistas, o chefe da estação, o senhor Domingos; os poucos
comerciantes e toda a população da cidade.
Eu caminhava radiante ao lado de meu pai, que viera da
fazenda com minha mãe e dois irmãos menores, Vera Leila e João Luís, para
passarmos o ano novo juntos; íamos para o centro da cidade e a estação do trem
era o ponto de parada “obrigatório”, antes de cruzarmos o vale e o riacho rumo
ao centro. Meu pai conversava animadamente com dois funcionários da estação e
eis que chega o telegrafista Artur Gonzaga Correia, filho do Bombeiro, como era chamado o
responsável pelo abastecimento com água dos reservatórios das locomotivas, o
senhor Luiz Gonzaga Correia, e diante do
aspecto de cansaço e cabelos em desalinho do Artur, meu pai disse-lhe: - “ E aí
boa vida, que cara enfarruscada é essa”? – “O velho foi”, respondeu Artur. –
“Eu sei disso, hoje é ano novo”, retrucou meu pai. – “O velho meu pai faleceu
ontem à noite”, enfatizou Artur. Meu pai
surpreso pediu-lhe mil desculpas pelo inesperado e triste fato e fomos ao
velório, ante a perplexidade do ocorrido naquele dia de alegrias e
comemorações. Esse acontecimento marcou-me de maneira indelével. Bem, os anos
se passaram e nenhum outro acontecimento excepcional tomou lugar de destaque em
minha memória, que eu me lembre.
Nos dois últimos anos, comemoramos a data em
Caraguatatuba, litoral norte paulista, no condomínio Yatch Club, em companhia
de Claudiner e Eliete, compadres, ela irmã de Helena, minha esposa, suas
crianças: Caio e Mariana, nós: eu, Helena e André nosso filho de 18 anos de idade.
Na véspera do ano novo de 2016, meu concunhado e compadre tinha um passeio a
fazer com seu barco, levaria uma família a conhecer várias ilhas no entorno de
Ilhabela e esse passeio demandou tempo das nove até às dezesseis horas e por
isso resolvemos acompanha-lo até próximo do ponto de embarque e desembarque dos
passageiros. Eliete com as crianças, eu e Helena acampamos na praia do
Flamengo, uma praia cinematográfica, lindíssima, próxima do saco da ribeira,
local de embarque e desembarque dos turistas.
O dia transcorreu muito bem na praia do Flamengo,
aproveitamos a praia, com muitos barcos atracados a certa distancia; comemos e
bebemos à sombra de frondosas árvores e não resisti ao ver enormes jaqueiras
carregadas de frutos, pedi ao proprietário do local e apanhei três das maiores
que encontrei e as levamos para nos
deliciarmos com elas a seguir. Na volta para casa à tarde pude ver por
duas vezes ao lado do barco o peixe voador acerca de um metro de altura da água
e a uns oito metros distante do barco e em nossa mesma trajetória, para nossa
surpresa, pois nunca os tínhamos visto de tão perto.
Na manhã desse mesmo dia, antes de sairmos para o
passeio, fui pro mar próximo do condomínio e retirei um covo, armadilha de
arame que deixara de espera na noite anterior, no seu interior estavam cinco
enormes caranguejos do mar os quais ao mar os devolvi na tarde do mesmo dia
após o passeio de barco.
Nos intervalos entre a pescaria, o passeio de barco,
banhos de mar e passeios pelo bairro, nos acercávamos da churrasqueira e do
jogo de truco, regado a cerveja bem gelada, pois o calor era grande; quem não
jogava se isolava confortavelmente com seu celular no WhatsApp e outros
recursos da internet, algo inimaginável nos idos dos anos 1950, dos meus
longínquos oito anos de idade! Qual será a novidade tecnológica daqui a cinco
ou seis décadas e quem dos que conosco partilharam dessa comemoração estará presente para
testemunhá-la? Só o correr dos anos mostrará!
Enéas Antonio Pires
segunda-feira, 18 de janeiro de 2016
PÉROLAS SEMANTICAS
Ensaio
Em
publicação de artigo no jornal Folha de São Paulo, do dia 15 de abril de 2007,
o historiador Boris Fausto discorre no texto sobre o congelamento e a
transfiguração do sentido das palavras na língua portuguesa.
Primeiramente
diz do cidadão português, do qual não cita o nome, somente o sobrenome,
Fernandes, que nomeou seu estabelecimento comercial de “Península Fernandes”,
por simpatia à palavra “Península”, que não tem nenhuma relação ou similaridade
ao referido estabelecimento comercial, pois península é uma porção de terra
cercada de água por todos os lados exceto por onde se liga ao continente, eis
aqui um caso de transfiguração.
A seguir
cita “comborço”, no congelamento, mas citada no romance de Machado de Assis
“Dom Casmurro”, e que equivale hoje o indivíduo amasiado, reles, ordinário.
Finalmente
menciona a palavra “bonde” a qual ao ser transcrita do inglês, “bond”, impresso
no bilhete de embarque do veículo de transporte coletivo, já mudou o
significado, pois traduzido para o português quer dizer: unir, título, acordo,
laço, o que não tem semelhança com o veículo mencionado, faz-se o uso por
associação pelo contato cotidiano com a palavra à época, ano de 1870, trata-se
então de uma transfiguração. Também associa-se ao “bonde”, o veículo que
transportava presos das cadeias ou presídios, e veículos de transporte de
conjuntos artísticos e de grupos literários etc.
Também
“bonde” era o jogador de futebol muito limitado, o “perneta”, o “Perna de pau”,
mais recentemente o “cabeça de bagre”, pois no ano de 1942 o jogador Leônidas
da Silva ganhou essa alcunha por fazer jus a ela, porém num domingo de jogo
entre Palestra Itália e São Paulo, time ao qual o jogador pertencia, o locutor
que era São Paulino, Geraldo José de Almeida, bradou “Gol do São Paulo”! Diante
do gol espetacular marcado pelo Leônidas: “O bonde de duzentos contos de reis
marca um gol espetacular de bicicleta”
Após todas
essas variáveis da palavra bonde, registro aqui minha experiência pessoal, isto
porque não vi nos anais da prosa e nos textos literários tal menção. Durante as
décadas de 50 a 70, período da minha infância,
adolescência, e juventude, quando íamos a passeio à noite à estação
esperarmos pelo trem de passageiros das oito horas e após seguíamos até a praça
central ao lado da igreja matriz e ali ficávamos a dar voltas no entorno do
coreto central.
A esses
passeios noturnos dizíamos: vamos ao “Fut”, em menção ao “Futting” do Inglês, (caminhar a
pé) era comum casais casados e namorados caminharem de braços dados e a isso
dizíamos: João e Maria estavam andando de “bonde” ontem à noite na praça da
matriz. Portanto, casais caminharem a pé, de braços dados era estarem de
“bonde”.
Em busca de
embasamento teórico para a origem da palavra “bonde”, em alusão a mau negócio,
o jogador de futebol limitado, etc, encontrei no DICIONÁRIO BRASILEIRO DE
FRASEOLOGIA, à página 189, a seguinte explanação: “BONDE”. Comprar um bonde.
Levar um logro. Reminiscências de anedota de um mineiro que foi enganado por um
espertalhão que lhe vendeu um bonde de companhia de Carriz, Força de Luz do Rio
de Janeiro. Cair no conto do vigário. Fazer um mau negócio(TC). Ser ludibriado
quando se calculava fazer negócio vantajoso; ser vítima da própria ganância e
ingenuidade (ANS). A expressão se originou de uma notícia de jornal,
inteiramente fantasiosa, escrita pelo repórter João Mauro de Almeida, no
“Diário Carioca”, em maio de 1929, segundo a qual um homem recém chegado de
Minas Gerais, José Pestana da Silva, teria comprado a um vigarista, por doze
contos de réis, um bonde da Linha Vila Izabel-Engenho Novo, convencido de que
ficaria rico dentro de pouco tempo, tal a afluência de passageiros, alguns
instalados até nos estribos do veículo. Aceita como verdadeira, tal notícia foi
repetida em outros jornais. Tornou-se frequente, como fórmula de recusa a
certas propostas, a expressão: Não sou mineiro, nem compro bondes. (RMJ). Dar
bonde. Passar drogas em barreiras e em blitz. “Deu bonde, cara, foi tudo limpo,
tudo legal” (JBSG). Roubar um homossexual. “Vou dar um bonde nesta bicha”
(JBSG). Do tamanho de um bonde. Muito grande. “...com cada letra do tamanho de
um bonde” (MLM 82) (TC). Diz-se de coisa volumosa, alta, de grandes proporções
(NA).
Como bem
disse Boris Fausto, “os signos tem vida e portanto, nascem, vivem, alguns
morrem, ficam congelados ou se transfiguram”, e essas informações são
importantes para que não nos percamos ao fazermos uso da nossa língua,
principalmente os mais jovens das três ultimas décadas e doravante.
quinta-feira, 26 de novembro de 2015
CRÔNICA
A praça e o tempo
Há algum tempo tenho me sentido
persuadido a escrever sobre a praça Lauro Gomes, logradouro na área central da
cidade de São Bernardo do Campo, espaço amplo, quase plano, de formato
retangular, que soma aproximadamente
cinco mil metros quadrados e de cuja data de inauguração não tenho notícia. No
centro da praça há um busto em bronze de Wallace Cochrane Simonsen, homenagem por ter sido ele o restaurador da
autonomia do município, datada de
11/01/1945. A partir do ano de 1955,
Lauro Gomes, que exercera dois mandatos, passou a ser prefeito da cidade e
nesse período, uma de suas realizações fora a construção da praça que leva o
seu nome. Nos dois lados mais amplos da praça estão: a rua Marechal Deodoro, a
principal da cidade, por ser eminentemente comercial e rua Marechal Rondon, que
dá frente para o colégio Estadual Maria Iracema Munhoz.
Conheci a praça no início do ano de 1970, no alvorecer
de minha juventude, ao migrar de minha cidade natal em busca de bom emprego,
estudar e lutar por melhores condições de vida. Muita coisa mudou desde então,
os costumes, a cultura popular, também a natureza mudou para melhor, a saber, onde a mão do homem não atuou para depreciá-la.
A vegetação da praça nesta primavera está exuberante; os gramados, as árvores
de grande porte, como as sibipirunas com seus galhos e troncos; generosos
hospedeiros às epífitas, vegetação variada que recobre completamente galhos e
troncos como se fora um tapete, sem contudo parasitar a hospedeira; além de
tantas outras árvores frondosas e bonitas das quais não me lembro do nome, além
das palmeiras gerivá, e a popularmente chamada por coquinho doce; e ainda as
frutíferas como: amoreiras, pitangueiras,
abacateiros, mangueiras, jaqueiras e goiabeiras, estas neste ano
produziram muitos frutos, para o deleite de alguns pássaros como os assanhaços,
sabiás e outros. Emocionante quando ao caminharmos ao lado da praça e vermos no
gramado interno, do outro lado da grade de ferro que cerca completamente a
praça, o João de barro com bolotas de barro no bico para sua construção ou um
inseto para alimentar seus filhotes. Na tarde de ontem, vi um sabiá aos
pulinhos pelo gramado com uma minhoca se contorcendo em seu bico, certamente
seria a refeição de sua ninhada. Em cada face da praça há um grande portão que
permanece aberto durante o dia e é fechado a cadeado no final da tarde para
evitar o vandalismo durante a noite, pois antes que a praça fosse cercada, fora
flagrada pela polícia, uma moradora de rua, seminua tomando banho na fonte, de
formato cilíndrico com um possante chafariz, do qual jorrava jatos de água
multicolorida nas noites de outrora.
O que embelezava a praça e trazia
conforto e lazer aos seus frequentadores, hoje está em ruína, a fonte está seca
há anos, as instalações subterrâneas da fonte e chafariz tiveram seu acesso
fechado por grades de ferro e cadeado e
dos dois lados da porta de acesso há várias e arrepiantes tocas que abrigam as
ratazanas. Dentre os bancos de concreto e granito, que são muitos, e confortáveis,
de perfis curvilíneos, e traziam anúncios de patrocinadores nos encostos, cinco
deles tiveram suas bases de sustentação quebradas por corrosão pelo tempo ou
por vandalismo; encontram-se hoje de borco sobre o gramado, como que alguém com
vergonha, a esconder dos passantes, o rosto.
No entorno da fonte, tendo ao lado
um pedestal com alto falante e amplificador de som, material de trabalho de um
cidadão de aparência humilde, que lá está todos os dias a vender CDs de música gospel e pregando o evangelho
de maneira amadorística, há um pedestal de concreto em ângulo de 45º o qual
sustenta uma placa de bronze com os dizeres:
“FONTE PRINCESA IZABEL A REDENTORA”
A beleza e os encantos da praça é
também maculada pela grande quantidade
de barracas e carrinhos de vendedores ambulantes que obstruem muito dos espaços
das alamedas e também a freqüência de alguns desocupados aos quais há que se
ter cuidado com a proximidade; estelionatários oferecendo variado produto de
roubo, outros que subtraem aparelhos celulares aos distraídos e até prostitutas
oferecendo favores sexuais aos passantes.
Dos costumes, os quais mencionei no
início, há dois remanescentes, que de algum modo traz certo charme aos
românticos que os vivenciaram àquele tempo e aí estão para testemunhá-los. Falo
aqui dos engraxates, que hoje estão quase em extinção pelo fato de que quase
toda a população usa tênis, das crianças aos idosos. Conheci nos anos setenta,
um engraxate, aparentando uns cinquenta anos de idade, ao qual chamavam por
Zezinho, um mulato de baixa estatura, usava chapéu de tecido e estava todos os
dias na esquina da rua Marechal Deodoro com a Tenente Sales, na lateral da
praça, muito querido pelos comerciantes e público em geral, que passavam todos os
dias para ouvir dele grandes gargalhadas, provocadas por piadas que a ele
contavam providencialmente. Zezinho morrera, não me ocorre a data. Hoje, no mesmo local há dois engraxates, um
homem e uma senhora; um pouco adiante, além da esquina, pela Marechal, há
outro, os três aparentam ter em torno de cinquenta anos ou mais. Outra
atividade que persiste na rua Marechal junto às grades da praça e pode ser
visto por quem por ali passa são as ciganas, a oferecerem-se para ler as mãos
dos incautos, numa alusão a preverem o futuro e a sorte, sob pagamento;
ostentando seus vestidos rodados e longos além de extravagantemente coloridos;
trazem também muita bijuteria pelos braços mãos, pescoço, orelhas e ouro nos
dentes; exibem fielmente o mesmo estereótipo que vislumbrávamos a mais de
quatro décadas.
O que não tenho mais visto na praça
é o vendedor de óleo de peixe Piraquê, o peixe elétrico, esse óleo, segundo o
seu vendedor, combatia dores reumáticas, vinha em um pequeno vidro na cor
marrom, com cerca de 100 mg de conteúdo, com um rótulo e inscrições em preto e
branco; o vendedor abria uma enorme mala e dela tirava o produto que acomodava
sobre um tapete e também o maior atrativo e chamariz da freguesia, um enorme
lagarto teiú, que permanecia imóvel e indiferente à curiosidade dos
circunstantes em burburinho, tal era a novidade. Rio ainda hoje ao lembrar das
noites nos fins de semana em que íamos à praça, era costume dos jovens
postarem-se ao lado das alamedas da praça enquanto as moças davam voltas de
braços dados umas às outras para serem vistas pelos expectadores atentos. Certa
noite estávamos na praça, eu e um grupo de amigos, moradores em pensões localizadas na vila Gonçalves e
dentre o grupo um se destacava, por ser muito brincalhão, o Mauro Gabriel.
Duas
jovenzinhas de cerca de dezoito anos de idade, irmãs gêmeas, eram conhecidas de todos, pois
vendiam bananas pelas ruas com cestas,
daquelas feitas de bambu, em cada uma das mãos, oferecendo de porta em porta. Certa
noite, ao passarem as duas irmãs pelo nosso grupo, o Mauro Gabriel disse em voz
alta: “Olha as bananeiras”, ao que imediatamente, a mais espevitada delas
mirou-o frente a frente e respondeu-lhe: “Bananeira é a P.Q.P.”; rimos a todo o
pulmão, todos entre os amigos e também aqueles que estavam por perto e
entenderam o ocorrido, inclusive o protagonista do episódio hilário, sem se
abater com a surpreendente resposta. Imagino que se daqui a quatro ou cinco
décadas, alguém que conheceu a praça há
pouco ou a está conhecendo agora, terá a iniciativa de fazer uma retrospectiva,
e que diferenças e semelhanças relatará, assim como o faço agora; quem estará
ali para testemunhá-la ? Só o tempo, o
dirá!
Enéas Antonio Pires
sexta-feira, 21 de agosto de 2015
CRÔNICA
Os sabiás voltaram
Às quatro horas da manhã, ao acordar, tenho a maravilhosa
surpresa do som melodioso do canto de um sabiá, (Turdus rufiventris) interrompendo
o silêncio da madrugada, entre os galhos de uma sibipiruna. Segundo a crença Tupy, o
sabiá é “aquele que reza muito”. As
árvores que enfeitam as ruas de São Bernardo do Campo são na maioria as sibipirunas,
mas há também as uvalhas, as jambolão, as quaresmeiras e as palmeiras gerivá,
oriundas do Bioma Mata Atlântica; além de outras menos notáveis. Toda essa nomenclatura arbórea me fora
informada gentilmente pelo biólogo e detentor de outros talentos, o meu amigo
José Vieira, durante os anos em que juntos trabalhamos.
Os sabiás irradiam poesia nas
primeiras horas da manhã, em que o negrume do asfalto e o silêncio soturno do
período nos oprimem a alma. O título deste texto é uma retrospectiva a uma
música que fizera muito sucesso, lançada acerca de três décadas passadas, pelo
Trio Parada Dura, intitulada “As andorinhas voltaram”, sendo que as andorinhas
são pássaros migratórios, por isso o verso diz: “As andorinhas voltaram”.
Quando digo que os sabiás voltaram, significa que eles voltaram a cantar, pois
eles são sedentários e têm o período
certo do ano em que cantam e encantam ouvidos e mentes de pessoas que como a
mim os admiram.
A partir do início do mês de agosto
até o final de dezembro eles cantam muito, em
vários e diferentes acordes, sendo que a fêmea canta numa freqüência bem
menor que o macho, diferente de outros pássaros que possuem um único cantar,
invariável. Pelo canto os sabiás secundam os humanos quando querem chamar à
atenção uma mulher, desde exibir os músculos adquiridos em uma academia ou
outro qualquer atrativo que funcione segundo a intuição de cada um; o sabiá
canta para demarcar território e atrair a fêmea para o amor, o acasalamento e a
seguir constroem seus ninhos e criam seus filhotes preparando-os para serem
adultos no próximo ano. Conforme nomenclatura, assim como os papagaios, os
sabiás são fieis por toda a vida, sendo
que só há a separação do casal pela morte de um deles.
Os sabiás têm a plumagem
predominantemente na cor marrom claro, parecido com chocolate, nas costas e de
um alaranjado a vermelho ferrugem na barriga, tanto os machos quanto as fêmeas.
Eles se alimentam de frutos, sementes e
insetos que encontram nos galhos das árvores e no solo entre folhas secas das
florestas ou nos gramados e ainda nos canteiros de flores e nesse particular
eles se diferem dos outros pássaros, pois ciscam como as galinhas em busca de minhocas e
outros insetos, pude observar isso no canteiro de flores de minha mãe, a dona
Rosa, sendo que após a visita dos sabiás ela recolhe a terra que eles jogaram
no piso do corredor, de volta ao canteiro.
Os sabiás são graciosos também
quando caminham pelo solo, eles se movem aos pulinhos intercalados por breves
pausas e agitar frenético e gracioso da cauda. Ano passado, certa manhã eu
caminhava pela calçada de uma rua próxima de onde moro e para feliz surpresa
levantei a vista para o galho de uma sibipiruna e lá estava a mãe, orgulhosa,
na borda do ninho e quatro delgados pescoços em riste rumo ao infinito sendo
alimentados, fiz uma foto com o celular e senti ter ganho o dia. Esses pássaros
me encantam desde os meus oito anos de
idade, era novembro, fim do meu segundo ano escolar, ao subir ao topo de uma
mangueira em busca das primeiras mangas que amadureciam, descobri um ninho com
quatro filhotes, e ao me aproximar escancararam os bicos, na expectativa de que
a mãe se aproximava para alimentá-los, se enganaram e eu sabendo estarem
famintos, amassava as formigas doceiras que passeavam pelos galhos da mangueira
e as depositava direto nas gargantas dos filhotes até que a mãe aparecia com
piados lamentosos e ameaçadores e me expulsava mangueira abaixo.
Em sendo o sabiá o nosso personagem,
não podemos nos esquecer do poeta Gonçalves Dias, quando em seus amargos dias
no exílio, escrevera o celebre e inesquecível poema que iniciava pelos
seguintes versos: “Minha terra tem palmeiras, Onde canta o sabiá; As aves, que
aqui gorjeiam, Não gorjeiam como lá”.
Enéas Antonio Pires
segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015
Acenos
ACENOS
Deslizando no negrume da avenida
Pela manhã absorto em pensamento
Súbito irrompe em breve momento
Frondosa espirradeira colorida.
Além, a majestosa Mantiqueira
Qual severa tempestade em formação
Dos cumes irregulares, rés do chão
Serpenteia verde e alvissareira
À meia distancia há os arrozais
Tremeluzindo ao querer da brisa
Prometendo o pão à mesa aos
comensais
Qual serpente se espalha na
imensidão
Silencioso incólume o Paraíba
Irrigando das bordas a vastidão.
Enéas
quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014
DESBRAVANDO
DESBRAVANDO
A
humanidade já galgou espaços
Evolui
sempre em busca de quimeras
Sonhava
em conquistar desde outras eras
Tendo
a imaginação, régua e compasso.
Buscando
incansavelmente a perfeição
Da
nave que conduz pro espaço estranho
Há
anos luz das páginas de antanho
Prenunciam
a iminente imigração.
Querendo
povoar outra galáxia
Desafiando
o seu desconhecido
Jogando
entre a vitória e a falácia.
E
assim caminha entre a desonra e a glória
O
homem ora perdendo, ora ganhando
Deixando
com o seu rastro a sua história.
Deve ter rima, nesse caso com as combinações: ABBA para os quartetos e CDC para os tercetos.
quarta-feira, 21 de novembro de 2012
BREVE INCURSÃO EM GARIMPOS DE
SELVA
Cronica
Foi uma viagem atípica, de
contrastes ante a beleza e exuberancia da floresta e rios amazônicos e os
perigos inerentes à maneira de viver e trabalhar naquele espaço quase inóspito
da selva amazônica. Chamou-me à atenção o grande afluxo de pilotos e mecânicos
de aviões à região dos garimpos de ouro no entorno da cidade de Itaituba, no
sul do Estado do Pará, já que o acesso às lavras do garimpo só era possível a
bordo de aviões monomotores, pela distancia e imensidão da floresta.
No final do ano de 1981 brevetei-me
piloto comercial de avião tendo passado por dificuldades financeiras pelo alto
custo do aprendizado, eu tinha em mente trabalhar como piloto para satisfazer o
ego e tambem ganhar dinheiro já que nos garimpos os pilotos sobreviventes
ganhavam muito bem. Digo “sobreviventes” porque eram muitos os que morriam em
acidentes, pelo quanto eram arriscadas e perigosas as operações nas pistas de
grarimo. Em contato com os irmãos Paulo e Renato, meus primos, que para lá
rumaram havia algum tempo em busca de trabalho, pois eram mecânicos de aviões e
tornaram-se arrendatários de oficina de aeronaves na Empresa Crepuri Taxi
Aéreo, cuja frota era composta por 12 aeronaves, sendo: 6 Cessna 210, 4 Minuano e 2 Carioca. Resolvi conhecer e sondar as possibilidades
de trabalhar como piloto, apoiado por meus primos.
Viajei de Araçatuba, cidade natal de
meus primos e seus familiares com destino a Cuiabá, capital de Mato Grosso, em
companhia do Renato, o mais novo dos dois irmãos, a bordo de um avião
turbo-helice, modelo Fokker da empresa aérea TABA, Transporte Aéreo da Bacia
Amazônica, e de lá, pela mesma companhia, seguimos até Itaituba, num aparelho
também Fokker, porem muito mais velho e barulhento que o anterior, esse não tinha
comissárias de bordo, só comissários. Nesse voo, eu e Renato esvasiamos uma
garrafa de natu nobilis, pois comecei a
sentir os primeiros sinais do local hostil ao qual eu me dirigia já na escala do voo na cidade de Alta
Floresta, com pista de pouso asfaltada e acomodações do aeroporto construidas
em madeira, tendo dos dois lados da pista de pouso a floresta densa com enormes
troncos de arvores. No momento do pouso estavamos sob chuva moderada, quando
encostou ao lado do avião o caminhão tanque com o combustível Jet A1, querosene
de aviação e o abastecedor com um guarda chuva protegendo a entrada do tanque
sobre a sas do avião, o abasteceu.
Não posso me esquecer de que as minhas passagens aéreas foram custeadas pelo
Renato, meu primo e companheiro de viagem, tal era crítica minha situação
financeira no ato da viagem. Tentei ressarci-lo dos custos tempos depois porem
ele não o aceitou. Durante os dois voos, solicitei aos comandantes viajar na
cabine, e fui autorizado por ambos, pois eu estava ávido por saber o quanto
possível sobre os voos naquela região de floresta, e tive muita receptividade
de ambos durante os voos.
Chegando em Itaituba fui hospedado
na casa de meus primos, não posso esquecer de que o Zezinho, irmão cacula dos
dois também dividia a moradia e o trabalho com eles. Itaituba é localizada à
margem esquerda do rio Tapajós, no Sul do Estado do Pará. Morávamos a menos de
200 metros da margem esquerda do rio, sob um calor insuportável de mais de 40º
e lembro me de que para dormir, só o conseguiamos com o ar condicionado ligado
a noite toda. Não havia chuveiro elétrico, a água vinda do Rio Tapajós era
naturalmente morna.
Já no meu primeiro dia no local, fiu
apresentado a um piloto, o Florindo, um paulista da região Noroeste do Estado
de São Paulo que prontamente convidou-me a acompanhá-lo ao primeiro voo do dia
a um garimpo que tinha o estranho nome de “invasão” o que denotava hostilidade
nas relações humanas, por conflitos de interesses. Esse garimpo fazia parte do
complexo de garimpos pertencentes à Fazenda Crepurí. O voo tinha duração de
duas horas e meia para ida e a mesma duração na volta, e voávamos a grande
altitude e sempre que possível próximo à margem de grandes rios, por prevenção
de alguma emergência durante a viagem sobre a floresta, com o rádio de comunicação
em frequencia livre, ligado, pois o espaço aéreo na região tinha tráfego
intenso. Só o piloto tinha banco e cinto de segurança, eu ia sentado sobre uma
caixa de madeira daquelas que acondicionam legumes e o restante do interior do
avião era repleto de carga, na maioria das vezes alimentos, gaz de cosinha,
combustíveis, ferramentas e outros.
Ao avistar a pista de pouso não
acreditei ser posível pousar no que parecia ser uma estrada de chão batido,
estreita, curta e com várias ondulações, o que fazia o avião sacolejar apesar
dos 500 quilos de mercadoria a bordo. Aos lados e nas cabeceiras da pista havia
um grande trecho de floresta devastado, com os troncos de árvores espalhados em
todas as direções e chamuscados pelo fogo, para viabilizar a aproximação e o
pouso dos aviões. Foi uma experiência única e inimaginável até então e uma
grande sensação de alívio ao ver a parada do motor do avião, para descarregá-lo
rapidamente e voar mais duas horas e meia de volta à base em Itaituba. Enquanto
descarregavamos o avião, pude ver além do final da pista a parte trazeira de um
avião que não parou a tempo e precipitou num declive deixando à mostra só o
profundor e o leme direcional.
De volta a Itaituba, Paulo
perguntou-me sobre minha experiência no primeiro voo e avisou-me de que caso eu
quisesse, teria outro voo para um
garimpo próximo a Jacaréacanga, uma base aérea já em território
amazonense. Naquela noite, jantamos em um restaurante que ficava no centro
comercial da cidade, fui alí apresentado a algumas pessoas, entre elas o senhor
Lourival Lemos, tambem conhecido por “Rei da voz”, proprietário da Fazenda
Crepurí onde se encontrava os garimpos
crepuri, sem ilha e cuiú-cuiú, alem das oficinas e de razoável frota de aviões e
aínda a criação de gado para abastecer de carne a cidade e garimpos. Renato disse ao senhor Lourival que
eu fora para lá com o intuito de voar e ele prontamente ordenou que
disponibilizassem um avião para que eu comessasse a voar imediatamente.
Agradeci-o, tendo em mente a remota possibilidade de pilotar um avião naquelas
condições fora de padrão. Conheci também naquela noite, no mesmo complexo
comercial, um cassino, coisa inédita para mim até então, contudo, já que estava
ali, arrisquei a sorte, joguei e perdi alguns parcos cruzeiros, o que era a
moeda corrente à época.
Na manhã seguinte fui apresentado a
um piloto o Vanilson Alves, a quem chamavam tambem por “pé”, por ele ter uma cicatriz muito grande em um dos pés causada
por um sério acidente de que fora vítima, ao saltar de paraquedas. Voamos por
duas horas e meia até o destino, um vale ladeado por serras e tendo à cabeceira
da pista por onde procede os pousos, uma enorme castanheira com seus grandes
galhos superiores cortados a motoserra para viabilizar a passagem aos aviões
durante os pousos e as decolagens, o que é feito assustadoramente ao passarmos
muito próximo pelo quão crítica é a operação no local; além de que nas
decolagens só podem estar a bordo o piloto e um passageiro, caso contrário o
avião não passa por sobre os troncos da castanheira. Enquanto descarregavamos o
avião, solicitaram ao pé, que levasse um senhor que passava muito mal com
malária para Itaituba, com o que o pé prontamente concordou, porem disse que me
levaria até a base aérea de jacareacanga distante de lá meia hora de voo e lá
eu o esperasse porque o avião não sairia daquela pista com tres pessoas a
bordo. Após uma hora de espera em Jacareacanga, tempo em que travei batalha com
borrachudos, chegaram, o pé e o enfermo, a seguir chegou na caçamba de uma
caminhonete uma senhora doente com malária e tres garimpeiros. Voamos por duas
horas e meia de volta a Itaituba, sendo que eu e os tres garimpeiros sadios,
desembarcamos na cabeceira oposta da pista de pouso para que o piloto não fosse
penalizado pelo excesso de passageiros, pela Infraero.
À minha chegada ao aeroporto meus
primos me deram a notícia do acidente com o Florindo, o piloto com quem eu
voara no dia anterior, e por sorte não estava com ele no voo, pois a carga do
avião que ao pilonar, pressionou-o com o seu assento ao painel do avião, e ele
não morreu por pouco, sendo hospitalizado por alguns dias. Fomos ao hospital
visitá-lo e eu perguntei-lhe: Você contunuará a voar? Ele respondeu-me: - Assim
que tiver alta volto a voar, tenho minha família para sustentar.
Na cidade, todos os dias deparavamos
com com situações inéditas e chocantes, havia duas famílias de rivais
nordestinos, poderosos financeiramente que se degladiavam pelo poder econômico
e por isso morriam de tempos em tempos, membros de ambas. Certo dia eu e meu
primo Paulo, fomos a uma loja de ferragens para comprar uma bomba de poço e na
entrada da loja havia um homem trajando um uniforme camuflado como aqueles que
usam os soldados do exercito, portando à mostra uma pistola à cintura e um
fusil às mãos, a título de defender os proprietários de emboscada inimiga. Em
uma das emboscadas, em que assassinaram vários membros da família, entre os
mortos estava uma grávida e a seu lado o feto de seu filho morto, retirado do
ventre da mãe pelos assassinos.
Paulo e Renato me contavam que em
determinados garimpos, nas barracas dos acampamentos cobertas por lona preta de
plastico, onde os garimpeiros dormiam, à noite morriam muitas pessoas por balas
perdidas resultado de brigas ou tiros dados a esmo por garimpeiros embriagados.
Depois de algum tempo, cavavam valas no interior das barracas como se fossem
sepulturas, para que ali pudessem dormir livres do perigo de serem alvejados e
mortos.
Outro tipo de assassinato bárbaro
era cometido contra os garimpeiros mergulhadores que tomavam parte nas equipes
das barcaças apoitadas no leito dos rios. Nessas barcaças havia todo o
equipamento de extração por sucção e peneiramento, com bombas possantes movidas
a óleo diesel, tendo mangueira de cerca
de 80 milímetros de diâmetro para sucçionar do fundo do rio: areia, cascalho e
seixos de onde separavam o ouro quando houvesse. O garimpeiro mergulhador
descia ao fundo do rio tendo um peso às costas para que lá pudesse permanecer
sem flutuar, e também tinha uma outra mangueira de menor diâmetro que levava ar
forçado ao respiradouro além de uma corda presa à cintura pela qual através de
pequenos toques em forma de código ele sinalizava aos que estavam a bordo
aliviarem-na para a locomoção ou que o puxassem à superfície quando necessário.
O grupo a bordo da barcaça, ciente das posses do companheiro em razoável
quantidade de ouro, mancomunados em cruel e sórdida ação criminosa,
interrompiam o envio de ar para que ele morresse asfixiado ou afogado caso se
safasse do respiradouro em situação de desespero, também não atendiam aos
toques em código na corda para o içamento e ao contrário cortavam-na para que a
correnteza do rio o levasse. Certos da morte do desventurado colega,
apossavam-se do ouro e outros pertences de relativo valor e sumiam na mata em
direção a outros garimpos distantes dali.
Certo domingo à tarde vi um cachorro
vira latas de porte médio pulando pela rua com somente uma pata dianteira e uma
trazeira cruzadas, a cena me deixou penalizado, então o Paulo me disse: - Essa
é uma das barbaridades que os garimpeiros embriagados fazem em fins de semana
ociosos. A cadeia da cidade fica junto à calçada e as grades com prisioneiros
enroscados a elas, como que atores representando aos transeuntes parece não
chocar os moradores locais, parece comum como são comuns para nós as vitrines
das lojas nas áreas centrais das cidades.
Às tardes íamos a uma ilha do rio
Tapajós a bordo de uma pequena lancha
do Paulo, meu primo, em um bar de propriedade de uma jovem senhora, que
lá vivia com seu bebê. Lá tomávamos cerveja e comíamos tira gosto vendo as
travessuras de um pequeno macaco que costumava vir beber cerveja à mesa com os
fregueses, ele era uma espécie de mascote do estabelecimento.
Naquele lugar, nem tudo era
sobressalto e acontecimentos desagradáveis e tristes, contava meu primo Paulo,
entre tantos acontecimentos engraçados, dois ficaram reclusos em minha memória.
Certo dia, indo do aeroporto à cidade, distante cercas de tres a quatro
quilômetros, havia uma caminhonete parada ao lado da estrada e um caixão com um
cadáver sobre a areia e o motorista trocando o pneu da caminhonete. Paulo
dirigiu-se ao motorista e perguntou-lhe: - Amigo, o que aconteceu? O outro
responde: - Tive que parar para trocar o pneu furado da caminhonete. – E porque
você tirou o caixão da caçamba do veículo? – É em respeito ao finado. Paulo
saiu rindo sozinho do que vira e ouvira.
Num outro dia, no centro comercial
da cidade em horário das crianças em idade escolar voltarem para casa com as
mães, Paulinho vira, o que não era surpresa às pessoas pelas ruas; animais
domésticos de todos os portes, só que nesse dia estavam lá, em meio ao
burburinho de pessoas, um casal de equinos copulando tranquilamente no meio da
rua para surpresa e deleite dos escolares, que sob puxôes de orelhas e sopapos
de suas mães envergonhadas e sob protesto diziam a seus filhos: - Olha pra
frente menino e caminha rápido senão vai apanhar! Paulinho dizia ter rido muito e ria cada vez
que nos contava esse incomum flagrante.
Daquela época só se tem uma certeza,
o ouro que saiu daqueles garimpos está espalhado, ornamentando pescoços,
orelhas, braços, mãos, bocas e outras
partes da geografia humana de muitas pessoas pelo Brasil e pelo mundo; as
histórias, certamente mais tristes que alegres, estão à medida em que o tempo
passa, mais raras nas mentes e nos relatos dos seres humanos que la habitaram
ou lá estiveram de passagem, remanescentes daquela época de sonhos com a
prosperidade, de falência material e humana; e de mim, humilde e breve protagonista
daquelas plagas, tenham este pequeno fragmento de História.
Enéas
Antonio Pires – Graduado em letras – Português/Inglês
segunda-feira, 12 de novembro de 2012
sexta-feira, 14 de setembro de 2012
ADMIRÁVEL MUNDO CANINO NOVO
Crônica
Admiráveis são as mudanças de costumes dos
brasileiros, impulsionados por outras sociedades, principalmente a européia, em
relação a esses maravilhosos seres, os cães. Ao menos nas grandes cidades, os
cuidados com a alimentação, saúde e higiene dos animais e limpeza nas vias e
logradouros públicos, quando vão aos passeios com seus cães, os brasileiros são
exemplares.
Acerca
de vinte anos passados quando morei nas vizinhanças de Paris, presenciei vários
acontecimentos curiosos e até repugnantes no tocante à relação dos franceses
com seus animais. Nas manhãs de domingo, eu me dirigia a pé à feira livre, no
centro da cidade de Poissy, distante mais ou menos um quilômetro do hotel em
que morava, e no percurso me deparava com grande quantidade de montículos e
montões de fezes caninas deixadas em plena calçada, pelo desleixo, mau costume e falta de educação dos donos
daqueles animais, e não raro lá estava pela via, sinais de pedestres
desavisados que ao pisar os horríveis dejetos, arrastavam as solas de seus
sapatos a título de se desfazerem de tamanho incômodo, deixando rastros tal
como pinceladas artísticas de pintura abstrata.
Em
outra oportunidade num sábado à noite,
fui junto a alguns amigos a uma festa popular a qual chamavam por “fete des
lojes”, parecida com nossas festas juninas,
na cidade de San German, distante
seis quilômetros, e lá rumamos a uma grande barraca de culinária alemã, com
longas mesas onde saboreamos joelho de porco com chucrute, ou (Sauerkraute).
Numa mesa visinha à nossa havia um casal que aparentava trinta anos de idade e
com eles traziam um grande cão da raça pastor alemão, que tomava assento à mesa
entre seus donos e degustava a refeição que cuidadosamente lhe serviam, alem de
depois da refeição, a mulher ter pedido ao marido que a fotografasse abraçada ao cão, o que na minha visão de
turista tupiniquim, se constituía em exagero jamais visto, o que nos dias
atuais não mais me surpreende.
Certa
manhã de sábado eu viajava de trem de Poissy a Paris, um percurso de quarenta
minutos, e logo que me sentei vi algo curioso e que me fez pensar,...
transgredir não é privilégio de brasileiros; à minha frente viajava uma jovem
muito bem vestida, portando várias sacolas e em uma delas estava um cãozinho
preto que teimava em por a cara pra fora e era empurrado de volta sob protesto
de sua dona que o escondia novamente, tendo isso se repetido várias vezes, pelo
que deduzi ser proibido transportar cães nos trens.
Entre
nós no Brasil, as transformações são lentas porem contundentes e os costumes
suplantam regras e leis; me lembro que há anos passados era terminantemente
proibido ter cães e gatos em apartamentos, sendo que os transgressores eram
sujeitos a penalidades e multas, e hoje há a inconsistente recomendação para
que se transporte o cão ou gato no colo e pelo elevador de serviço, e pelo que
tenho visto não é cumprido à risca, transportam às vezes o cão pelo elevador
social mesmo! Não sou contra isso, afinal o cão é o nosso melhor amigo. Não
tardará o dia em que um parlamentar elaborará um projeto de lei criminalizando
por preconceito, maus tratos ou o que o valha aos síndicos de edifícios que insistirem no
cumprimento da determinação.
No
Brasil, os produtos, serviços e cuidados veterinários, dentários, psicológicos,
festas de aniversário, desfiles e concursos de beleza e talhe racial, etc.
estão em franca ascensão, um negócio rentável e em expansão.
Retomando
a frase “o cão é o melhor amigo do homem”, lembro-me de que em minha infância,
houve um episódio digno de registro. Havia no lugarejo, hoje cidade de Juritís,
dois amigos inseparáveis: Zé Caetano e Chico Faustino, companheiros de
trabalho, de pescarias e outros entretenimentos entre os quais o de beberem
juntos nos bares,o que às vezes desvirtuava em conflito e luta corporal, em que
certo dia os amigos se desentenderam e Ze Caetano estava em vantagem, surrando
o amigo que apelou pelo seu cão “vira latas”, “pega titiu”! gritou Chico
aflito, e o animal avançou feroz, mordendo e sacolejando a nádega do agressor
que parou imediatamente com a pancadaria, rumando imediatamente para o pronto
socorro em busca de cuidados médicos. Devo ressaltar que o episódio não puzera
fim à amizade e ainda deu lição de tolerância aos contendores e o respeito de
ambos ao cão herói.
Recentemente,
num domingo à tarde, fui à casa de um amigo e colega de trabalho que fora acidentado, o Claricio, para visitá-lo
e enquanto conversávamos sentados no sofá da sala, eis que apareceu com um
aspecto triste e cabisbaixo um caozinho de estatura média e corpo delgado, de
cor amarelada, chegando onde eu estava cheirou-me timidamente ao que lhe fiz um
afago e tentei agradá-lo, porem fez meia volta e foi-se embora. Claricio
disse-me que o cãozinho ao vê-lo chegar à sua casa após o acidente, com o rosto
coberto por curativos e um braço engessado não pulou em seu colo como era de
costume e ficou recluso em seu canto, triste e não comeu nem bebeu durante dez
dias, o mesmo periodo em que Claricio não se alimentou pela gravidade de seus
ferimentos. À véspera de minha visita, em que Claricio voltou a se alimentar, o
caozinho o secundou bebendo e comendo, tendo ficado seriamente enfraquecido
fisicamente pelo amor e apego a seu
dono. Eu fiquei comovido e emocionado com o relato do meu amigo.
Eu
sempre me emociono muito ao encontrar uma visinha na garagem do estacionamento
do condomínio em que moro, ao sair ou chegar encontro-a com seu cãozinho idoso
e obeso que sofre de mal cardíaco e ela sabe por informação do veterinário que
seu cão não viverá por muito tempo, ela se emociona e chora ao falar nele com a
certeza de que vai perdê-lo.
Dia
destes o Nelson, meu amigo e colega de trabalho contou-me algo engraçado e que
prova mais uma vez o que eu disse sobre os bons costumes dos brasileiros no
tocante ao asseio com seus cães nas vias públicas. Nelson é proprietário de um
apartamento em Praia Grande, no litoral sul e pra lá vai aos fins de semana em
busca de lazer e fazer novas amizades. Num domingo pela manhã uma senhora sua
vizinha disse-lhe: - senhor Nelson, os
trombadinhas de Praia Grande não respeitam mais nem as fezes dos cachorros,
acredita que eu ia eu pela calçada com meu cachorro e a sacolinha com as fezes
dele quando abruptamente apareceu em desabalada carreira um deles que arrancou
de minha mão a sacola, dobrou a esquina
e desapareceu. Ainda gritei ao rapaz, isso são fezes de cachorro, é lixo! porem
ele não me ouviu, tal o ímpeto da ação delituosa que acabara de praticar.
Imagino a frustração dele ao conferir o produto do roubo!
Minha
irmã Rosa, falando-me sobre seu convívio com suas duas cadelas, disse ser a
Mag, uma labrador já idosa, muito disciplinada, que não faz suas necessidades
fisiológicas na rua ou em qualquer lugar que não seja o seu espaço no fundo do
quintal em hipótese alguma; já a Nic, uma vira latas, de pequeno porte e mais
jovem que a outra e recebe os mesmos cuidados, é completamente indisciplinada e
não assimila as lições de adestramento.
Recentemente,
uma segunda feira muito fria, às seis horas da manhã, ao descer pelo elevador
em direção à garagem, estava um jovem casal de moradores de um andar superior
ao meu com seu cão, não sei qual a raça, só sei que tinha porte médio e era
branco como uma pluma e tremia muito nos braços da jovem e eu disse-lhes: - ele
deve estar com frio, - estava realmente
muito frio. A jovem me disse, não é isso, ele sabe que vai ao pet shop e tem
muito medo de lá. Pensei, ... esse cão precisa é de
tratamento psicológico, porem creio ser ainda no Brasil, limitado esse cuidado
aos cães, ou quem sabe o jovem casal é quem precisa de ajuda psicológica para
melhor se relacionarem com seu cão, ou buscarem a ajuda de “O encantador de
cães”, Cesar Millan, o mexicano de Culiacán radicado Los Angeles nos Estados
Unidos, o fundador do centro de psicologia canina e autor de varios DVDs e
livros dedicados à felicidade dos cães e seus felizes proprietários.
segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012
A
FIGUEIRA E O COLIBRÍ
Crônica
Desde a
infância sou fascinado pela figueira, árvore que se destaca das demais em
variadas nuances. A começar por ser uma das poucas árvores do conhecimento
popular citada nos textos Bíblicos, a figueira é talvez a única que quando
nasce, tem como hospedeira uma árvore morta, um tronco rente ao chão em estado
de decomposição, uma casa abandonada deteriorada pelo tempo ou qualquer tipo de
construção em ruína; entre as fendas de uma rocha ou de concreto armado de
velhas pontes ou viadutos, calçadas e muros depreciados pelo tempo e descuido,
ou até em árvores em pleno vigor ou palmeiras a produzir frutos. Há uma dessas
palmeiras a qual chamamos no popular por coquinho doce, cujo nome próprio é
“Gerivá”, que fora plantada ha quase vinte anos no quintal da casa de minha
mãe. Creio ser essa a única palmeira no raio de alguns quilômetros a produzir
frutos e atrair periquitos, maritacas e outros pássaros, para nossa alegria,
além de curiosamente ha uns quatro anos ter-se tornado hospedeira de uma
figueira que hoje mede cerca de um metro e meio de altura, agarrada ao tronco
há cinco metros do chão, com suas raízes como filamentos em direção à terra.
A figueira
adulta é a mais exuberante das árvores da Mata Atlântica brasileira. Ela tem tronco
de grande diâmetro, galhos enormes, folhas grandes em formato oval, copa
achatada que chama à atenção as pessoas por destacar-se das demais árvores na
floresta. Também atrai grande variedade de pássaros, com seus frutos, os figos,
quando maduros. Há uma dessas árvores que ficou sob meus cuidados desde que
nasceu agarrada ao tronco de um pé de manacá que havia no quintal da casa de
minha mãe, até que ao atingir meio metro de altura, mudei-a para um vaso
plástico, regando e adubando-a até atingir um metro, quando a replantei num
grande parque, o Parque dos Pássaros, de formato quadrado, com cerca de 20 mil
metros quadrados, gramado, com algumas árvores mal cuidadas e circundado por
mansões suntuosas.
Tive o
cuidado ao plantá-la, de arrancar a grama num circulo de meio metro, adubando e
regando-a no periodo da seca, até que um dia ao visitá-la, já com um metro e
meio de altura, encontrei-a caída sobre a grama com o tronco cortado até o
meio, pela roçadeira dos trabalhadores da manutenção do parque. Ela ainda
estava verde apesar do maltrato sofrido. Voltei imediatamente à casa em busca
de ferramentas, algumas estacas de madeira e fitas finas de plástico com o que coloquei-a de pé, fiz atadura na
parte cortada e circundei seu tronco com restos de construção, blocos de
concreto e pedras de modo que as roçadeiras não mais a atingissem. Dentre as
nuances de que falei no início, está a
de que minha figueira difere das demais no aspecto físico, ela tem o porte das
coníferas, com três metros de diâmetro na parte inferior dos galhos, uns seis
metros de altura, assemelhando-se a uma árvore de natal, completamente
diferente das suas irmãs de copas achatadas.
Bem ...a
essa altura hão de perguntar: “E o colibri”? Vamos lá, o colibri tem suas
particularidades e toma parte nessa narrativa, ele é uma das menores aves e tem
o vôo velocíssimo, o maior número de bater de asas de todos os de sua espécie,
se alimenta principalmente do mel das flores, é valente para com os do seu
porte e preferência alimentar, as saíras. Ao colocarmos água com açúcar em
recipientes apropriados para atraí-los, eles expulsam as concorrentes
violentamente, para longe da refeição da qual se sentem donos absolutos. Tive
uma surpresa muito agradável da ultima vez que visitei minha figueira, de longe
vi que seus galhos estavam carregados de frutos e ao me aproximar, vi voar dos
primeiros galhos um colibri e ao olhar para o alto vi preso a um dos galhos o
seu ninho. Ele pousara num dos últimos galhos no topo fugindo à minha presença,
de lá expulsava outros pequenos pássaros que tentavam pousar.
Outra
surpreendente particularidade do colibri, ha alguns anos passados à casa de
minha irmã, Vera Leila, no interior de São Paulo, havia um ninho de colibri
preso ao fio elétrico e junto à lâmpada que pendia do teto da área ao lado da
sala, era inverno e o calor da lâmpada incandescente aquecia a mãe e seus
filhotes, além de que ali estavam livres das aves de rapina. Pudemos ver por
alguns anos seguidos, talvez a mesma mãe utilizando o ninho provavelmente sob
alguns retoques.
Voltando à
figueira, junto ao seu tronco, à sombra, havia uma garrafa de dois litros de
água mineral, certamente de pessoas que fazem caminhada pela calçada que
circunda o parque. Fiquei parado por alguns minutos refletindo no quão
compensadores são nossos gestos de preservar e plantar arvores, e no quanto a
natureza nos traz de retorno, oferecendo os frutos por alimento, os galhos para
abrigar os ninhos e o repouso aos pássaros; a sombra para o descanso, o
conforto e a reflexão para nós,seres humanos.
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